Nascemos!
Nascemos!
Oficialmente dia 15/08, faz um mês hoje mas seguimos ainda nascendo.
Nesse tempo fora do tempo, seguimos nascendo um pouquinho a cada dia. A cada novo encontro, a cada novo entendimento, a cada vez que eu entendo o que ele está precisando e ele a cada vez que se aconchega satisfeito.
Cada vez que nosso olhar se encontra, nascemos.
Nascemos em olhinhos curiosos, bochechas rosadas, apetite voraz, barulhinhos intermitentes, mãozinhas firmes obstinadas e cheiro de paraíso.
Ainda somos um, mas pouco a pouco os olhos dele vão se abrindo para o vasto horizonte que existe para além de mim.
E os meus olhos vão se re-acostumando com a paisagem do que parece ser a vida, que muda de tom, de forma e ângulo, de cor, textura e sabor a cada vez que um filho chega.
Por fora agora, mãe de três e tudo que eu já era.
Por dentro tentando encontrar alguma permanência, para ter um espaço ainda que pequeno de continuar sendo o que um dia fui e que daqui a pouco será o que sou, atualizado. O que eu vou chamar de meu novo eu, e que eu ainda não sou, mesmo não sendo mais o que era também.
Pode parecer confuso, mas se você já pisou no chão do puerpério sabe exatamente do que eu estou falando.
Fico exausta dele, e nos 40 min que ele dorme fico olhando pra ele, ou vendo fotos e vídeos dele.
Quero sair pra respirar um ar diferente no pôr do sol, e fico pensando como ele está nesses longos 10 minutos que estou longe.
Ainda não sobrevivemos um sem o outro. Sem ele também me falta eu. Com ele, eu estou lá mas não estou.
Ouvi essa semana, que a solidão do puerpério é tão pungente, porque sentimos falta de nós mesmas.
Fez muito sentido pra mim.
Eu estou aqui, muito eu, completamente entregue e presente. Para ele.
O nível de desapropriação é tanto, que em alguns momentos eu não sinto fome, sede ou sono. Esqueço de comer e beber água. Até que o marido pergunta: você comeu, quer comer? Eu respondo que posso comer, e aí como tanto, como se tivesse ficado 1 ano presa sem comer. Bebo tanta água como se estivesse no Saara e acho que não estou com sono, mas durmo profundamente em qualquer encostada.
E pra quem é apropriada de si mesmo, vive debaixo de sua pele, gostando disso, essa experiência de doação carrega muitas emoções, de encantamento a assombro, de felicidade genuína a medo.
Num gerúndio contínuo e gratificante. Eterno e efêmero. No centro exato da ambiguidade e do paradoxo humano.
No hiato dele ir se tornando ele, pra que eu volte ao meu eu.
E obviamente cada uma vive isso à sua maneira. Algumas mais leves, outras ainda em situações que caminham para o adoecimento.
Porque é preciso já se ter para sentir a iminência de se perder. E se permitir essa entrega inteira pra renascer e reencontrar depois.
E eu me tive, nós nos temos e nos teremos, individualmente, daqui a algum tempo.
Até lá, sou fonte de calor, restaurante, cama, colo, cobertor, refúgio seguro, sou música, palavra, contorno, limpadora, massagista, fonte de entretenimento, consolo, estimuladora, desenvolvedora de software e mantedora do hardware.
Que loucura fazer um humano, que loucura ser um humano que faz humanos e que loucura deve ser nascer pra essa vida humana.
Perfeita é a natureza que só nos dá memória mais tarde, para que possamos sentir essa mãe que devoramos dentro de nós, sem realmente alcançar que fizemos isso pra sobreviver, e que alegria, a sobrevivência dela.
Winnicott é foda.
E o cheiro do paraíso faz a gente se inebriar, descansar e lembrar que passa. E lembrando que passa, o desejo é de parar o tempo.
Respiro fundo pra caber toda essa imensidão e pra sentir esse cheiro uma vez mais. Em uma prece silenciosa pra agradecer e lembrar dele pra sempre.
Quando passar, tudo isso será uma lembrança integrada.
A mesma lágrima será de saudade e de alívio. Como hoje pode ser de felicidade plena e de profundo desamparo.
E nossa conquista mór será sermos cada um si, e de si.
Ensinar um humaninho a ser ele e dele, antes de tudo, é uma grande honra, e espero que seja nossa glória daqui a algum tempo.
Até lá, caminhemos.
Feliz nosso 1 mês ❤️
Que texto!
ResponderExcluirQue beleza! Um mês é tanto e tão pouco.
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