Sobre o que celebrar (ou buscar) nesses 60 anos de psicologia no Brasil.

 

Nesse agosto de 2022 celebramos 60 anos da regulamentação da profissão e psicologia no Brasil, e como todos os marcos precisamos utilizá-lo para olhar para as fragilidades do tema, e assim trabalhar no fortalecimento e solidificação que seja coerente com nossa celebração.

Muitas vezes, diante de datas “comemorativas” questionamos inclusive se realmente temos o que celebrar.

Eu pessoalmente, creio que nesse caso sim, mas que possamos ter abertura também para as fragilidades pertinentes ao tema.

Então primeiro, já vou celebrar que fica mais fácil e depois discorro sobre o resto para que também possamos terminar com alguma reflexão e sustentação do incomodo necessário.

Celebro minha carreira, celebro a evolução da pesquisa, celebro o que a psicologia pode e faz pelo individuo que pode e quer ter acesso a ela - não me entendam mal, mas tem que pode e não queira, tem quem quer e não pode, tem quem precisa e não quer, tem quem precisa e não pode, tem todas as variáveis juntas, e tem quem acha que é de comer – mas peraí -  tem uma certa fome que ela resolve mesmo né.

As vezes parafraseando Lulu, falamos que a humanidade caminha a passos de formiga e sem vontade. Não sei se faria esse comparativo com a psicologia, talvez eu diria sobre algo ainda mais caótico e descontrolado, sobre como varias sementes num ar de primavera, de um ano marcado por bastante vento, e tendo algumas sementes caindo em solos extremamente férteis e outras em cimento puro, outras ainda ficando no ar, por dias, meses, anos ou gerações.

Pode parecer loucura total esse lugar de não controle das variáveis e do processo mas é a mais pura verdade.

(E se algum profissional de psicologia te prometer ou afirmar o contrário, corre que é cilada Bino).

E aí sou obrigada a citar Foucault: 

"A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade sobre a psicologia."

Meu melhor jeito de celebrar então a psicologia, é honrando o que ela é na minha vida.

Honrando o quanto ela me fez quem sou. E obviamente não estou falando da academia. Estou falando do meu próprio processo terapêutico.

Na hierarquia da minha reverência, vem primeiro minha família. Primária e secundária, que me permitiu estudar a mim, a eles, a vida e ter motivo pra tudo isso. A minha terapeuta, acompanhante comprometida pelos últimos 15 anos. Depois outras figuras que foram terapêuticas para mim (terapeutas mais breves ou supervisores). Depois professoras e professores da área. Depois professores da vida. Depois amigos terapêuticos. Depois ainda objetos terapêuticos. E por último um louvor a mim, que sou o agente integrador de tudo isso, e que sirvo também, tudo isso, a cada paciente, orientando, colega, consultado que cruza meu caminho.

E se você reparar, a ciência psicologia não está aí, deliberadamente, mas sim está aí, profunda e amplamente.

Tudo o que ela me deu sobre si, foi utilizando-se de pessoas. Através das temidas e bárbaras relações.

Porque cada corpo, cada individuo é pra mim corpo vivo da psicologia. Cada pessoa que é tocada por ela passa a representá-la.

E não tenho reservas sobre essa afirmação, porque tenho paciente muito mais representador dela, do que colegas psicólogos, terapeutas formados.

E isso se dá, porque a nomenclatura e título é muito pouco para se ocupar o arquétipo do Xamã na vida moderna, e olha lá, que estou ainda no espaço do xamã de si mesmo.

Dos outros então, a sociedade e muitos psicólogos ainda não estão prontos pra essa conversa.

Voltando a celebração, se você chamar um objeto de amor, ele não passa a amar por isso.

O cuidado com o título nasce da mesma superficialidade que a nomeação sem processo traz.

E aí, vamos confirmando a importância do processo pessoal na construção do sujeito que quer brincar de ser xamã de si mesmo, pra depois ser promovido a lanterna de algo ou alguém, pra depois ainda, respeitando um arquétipo presente no nosso inconsciente coletivo, de certo xamã, médico de alma, sacerdote da ciência ou todas as coisas misturadas. E quando esse momento chega, a dimensão dessa realidade se faz tão séria, que a humildade e pequeneza diante da imensidão que é a vida, nos faz perceber que o rótulo de aprendiz, é sempre o melhor barco pra nos conduzir.

E aprendiz de tanta coisa, que a gente entra no looping eterno do que eu sei e do que eu ignoro, e não raro, o psicólogo vai ser o rei da festa da síndrome do impostor. Porque a consciência do não saber com a responsabilidade do trabalho, é uma combinação que pede grounding 3 vezes ao dia, pera, tem dia que um pouco mais que isso ainda.

Porque a vida tem maneiras parecidas de dar errado, mas zilhões de possiblidades distintas de dar certo. O número exato é a quantidade de habitantes do mundo, e o desespero é, não sabemos como é que o seu, que chega na sessão desesperado em busca dessa resposta.

Mas acredite, se esse alguém, sentado do outro lado da sala ou do vídeo, já minimamente reconhece sobre seu próprio dilema, você estará em boas mãos.

Então sim, sou aprendiz de pessoas e desaprendiz da vida. Ou daquilo que um dia, pra ficar segura, resolvi acreditar que fosse ela.

E na minha vida pessoal, aprendiz de mim e desaprendiz do que o social e coletivo me leva fatídica, infeliz e repetidamente pensar que sou eu.

E dos motivos para celebrar, dessa psicologia feita por pessoas e para pessoas, está especialmente a nossa capacidade de presentificar nossa angústia desse não saber, e dividir isso com quem nos atravessa numa rede de humanos que se solidarizam uns com os outros e compõe juntos.

Melhor pirâmide não existe. Essa é a verdadeira cadeia do ganha e ganha.

E por falar em presente, que presente receber um paciente. Que presente ocupar esse lugar tão sagrado de acompanhante de vida e história. Que honra. E isso é tão imenso, que vai ter texto inteiro sobre.

Também vou deixar nosso manifesto das fragilidades para um próximo.

Nem maior, nem menor ou melhor.

Mas mais uma faceta dessa tentativa de filosofar o cuidado e a ciência por trás disso, desejando que as palavras possam ser nossas cumplices nesse momento.

Caminhemos,

Mari.

Comentários

  1. Lindas palavras meu amor!❤️ Viva a Psicologia e o meu encontro com vc!🫶

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