Em busca de mim

Primeiramente, minhas desculpas a quem veio ler esse texto pelo título.

Não que eu não esteja passando essa encarnação em busca de mim, estamos também, mas é que o título faz referencia ao livro da Viola Davis que acabei de ler na semana passada e ativa na busca de mim que estava, não tive oportunidade de vir aqui escrever.

Agora um tanto mais resgatada, posso falar do livro no lugar de quem adorou, mas também no lugar de quem já se resgatou algumas vezes e que questiona um pouco a versão "coach contemporâneo" de ficar o tempo todo trazendo a criança ferida como estratégia barata de marketing em rede social.

Prefiro a versão de Milton Nascimento, que diz que "há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração, toda vez que o adulto vacila ele vem pra me dar a mão."

Somos todos feridos, e se você me lê, somos na mesma medida, sobreviventes.

E não me levem a mal, longe de negar todo o referencial teórico de toda uma escola e ciência psicológica que fala sobre traumas primitivos e de desenvolvimento, sobre construção de personalidade, desenvolvimento de caráter, modelo de apego e etc

Claro que nossas defesas primitivas e infantis deixam de ser defesas para representarem grades na vida adulta, e é sobre isso um tanto que se refere o meu trabalho, talvez a grande função dele, converter defesas em recursos.

E por isso, na minha prática de vida, pessoal e profissional, é lembrando da sobrevivência que sempre tive mais resultado.

E aqui posso entrar um pouco no livro da Viola, que a propósito se você não leu, tá perdendo tempo, e se você fala inglês, minha sugestão é de ouvir o audiobook em inglês acompanhando o texto se assim desejar, porque nesse caso temos a incrível oportunidade de termos a própria autora lendo o livro, e aquela voz diz muito, em conteúdo, profundidade e tom. 

Voltando, após discorrer sobre sua história de uma maneira crua e ao mesmo tempo sensível e abordar questões de ordem estruturais e sistêmicas, como racismo, violência e abuso, ela também fala muito sobre o seu potencial de sobrevivência e como sua arte e trabalho a salvaram, mas também seu inconformismo, sua fé, sua abertura ao processo de desenvolvimento pessoal e terapêutico e por ultimo seu companheiro, que provavelmente não teria existido, ou sido quem é e da forma como foi e ainda é, se ela não tivesse ultrapassado tantos limites dentro e fora de si.

Então aí mais um ponto importantíssimo, não existe mudança sem perda (ainda que sejam de nossas ilusões) e não existe mudar algo externo sem um trabalho profundo de auto conhecimento e desenvolvimento para que no mínimo isso se sustente também internamente.

Ah Mari, mas não tenho condições, tempo, dinheiro, disponibilidade.

Só posso te dizer uma coisa, quanto maior o buraco que você saiu, mais você deveria ter começado na terapia já há anos. 

Existem inúmeros profissionais que atendem com valor social, existem as clínicas escolas, existem os profissionais de plano, os conselheiros de igrejas, o atendimento fraterno, enfim, comece por algo, que possa depois te levar a algo mais e depois a algo mais. Até que você possa se ver em um vínculo que seja capaz de reparar as distorções e vínculos destrutivos.

Nas relações nos construímos, nas relações nos destruímos.

Ah Mari, mas eu tô bem assim.

Aí vamos precisar definir bem, e checar nas suas relações, porque as vezes tem uma porrada de gente tendo que se cuidar porque um alecrim dourado que está "bem", na verdade tá tocando o terror numa galera. De cabeça eu posso contar uns 10 aqui, e não estou falando na esfera profissional não.

Bom, mas voltando, o grande lance do livro, é o oposto sobre a criança ferida.

Claro que ela é uma criança ferida.

Mas ela faz um trabalho consigo mesma de buscar a força dessa criança sobrevivente, e no caminho encontramos as feridas e toda a dor, mas precisamos prosseguir, rumo a força e saúde que esse sobrevivente teve em todos aqueles momentos.

Não se trata de negligenciar as feridas, e em um processo sério olhar pra isso é mesmo inevitável, mas se trata especialmente em fazer um trabalho que possa ser progressivo e de acionamento dessa força e sobrevivência.

Porque se você sobreviveu pra contar sua história, seja num livro ou em um consultório, significa que sim vamos acolher sua criança ferida mas em outros momentos vamos nos permitir sermos guiados pela sua criança e força de vida, vamos abraçá-la não só para dizer que está tudo bem, mas para ouvir dela, que está tudo bem, olha em volta, veja onde eu te trouxe, agora toca daí.

E pra concluir, não é um caminho linear, no mesmo dia, no mesmo momento talvez tenhamos que abraçar nossa criança em consolo, ao mesmo tempo que a abraçamos para acalmar nosso adulto e obter forças.

É um processo fluído, dinâmico e muitas vezes inconstante, mas gradual e contínuo. E eu chamo esse processo de vida, algumas escolhas não são nossas, são e serão reações. Outras escolhas são da nossa alçada e essas poucas que são, serão nossas ações. E não agir também é uma ação, que nos leva a um ciclo contínuo e desesperador de contato com essa criança ferida e a vítima que fomos.

E aí podemos terminar com Sartre né, 

Que não importa o que fizeram do homem mas sim o que o homem faz do que fizeram dele. 

E por favor, não é numa perspectiva de resignação nem tampouco num lugar que desconsidere questões estruturais, politicas, sociais, econômicas e subjetivas, mas é sobre um lugar que amplia as possibilidades de escolha e sobrevivência dentro da singularidade daquele individuo.

E se eu estou falando muito grego para você, seja qual for sua polaridade do momento, o livro pode ilustrar muito bem, quão impossível e surreal é romper uma bolha com questões socioeconômicas e estruturais tão presentes, mas também, sobre como uma vez feito isso, sem auto desenvolvimento nada se sustenta.

De um lado tem a criança ferida, de outro a que sobreviveu.

Seu adulto está tentando se equilibrar entre uma e outra.

Dá uma forcinha pra você se precisar, tem aquela parte que só você pode fazer por você mesmo, que é a sua.

Primeiro passo.

Caminhemos, 

Mari Ronconi







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