Vida real x Vida Virtual
Tenho sentido muita falta de passar por aqui e deixar algum texto livre.
Em escrever solto sobre divagações e reflexões.
Penso sempre sobre como eu posso odiar tudo que amo, se precisar fazer por obrigação, e como muitas coisas na vida são deveres, isso é um perigo.
Antes de se tornar dever, provavelmente foi escolha, mas depois de feita esquecemos e damos aquela brochada.
Isso comigo é recorrente, sobre o cuidar, cozinhar, dirigir, escrever, fazer exercícios, meditar.... enfim.
Então tô aqui hoje pra cuidar do meu prazer de escrita e não fazer dele só o oficio da diretora do Jacarandá.
E pra falar também sobre o "dever" de algumas demandas sociais/virtuais.
Semana passada rolou um trem na internet de dia do filho, eu já tinha visto outras vezes, acho uma delicia ver fotinhos dos filhos de todos, e adoro exibir os meus. Já entrei nessa outros anos.
Mas semana passada eu nem vi esse trem rolando direito, tava no corre, não postei nada e não dei "parabéns" pelo dia do filho.
Não sei os códigos dessa nova convenção, e o que se faz dela.
Quem postou foto deu os parabéns? Falou pra eles que é muito feliz por ter filho?
Alguém sabe como funciona esse trem?
Se é uma ação contorno da nossa maternidade, para simbolizar e suavizar nossa saga com a beleza e graciosidade dos nossos rebentos, se tem a ver com nosso projeto narcísico da maternidade, se é só um movimento de massas, todas as alternativas acima juntas, enfim.
O ponto é, deixei passar, ALGUMAS (mais de 3 e menos que 10) pessoas me perguntaram se estava tudo bem comigo e meus filhos, especialmente com a mais velha que mora longe. Eu disse que sim, tava tudo certo, e ouvi/li o fatídico: É que você não postou nada ontem, quarta, semana passada e (no dia do filho).
Oi?
Eu demorei pra entender, a relação de uma coisa com outra, juro.
E também quando entendi achei que era piada. Cri cri cri
Não era. Engole o riso. Seria cômico se não fosse trágico.
Gente de Deus, que mundo é esse que a gente acredita que o que tá na internet é exclusivamente o real.
E que se não está ali, não existe.
Tem realidade ali, sem dúvida, mas tem muita utopia também.
Tem pais maravilhosos, exibindo seus rebentos, mas tem crianças expostas ali extremamente infelizes.
Tem foto ali colocada rápida, tem negligência de afeto e de cuidado mascarada por sorriso e cenário montado, tem histórias escabrosas por traz de tanta necessidade de aprovação social e virtual.
Quem aqui é mãe, sabe da dificuldade de ter uma foto de família alinhada, cada um olha pro lado, um não quer, o outro quer fazer xixi, o outro quer fazer aquelas caras adolescentes, o outro quer colocar a roupa do super herói. Quer saber quem te segue, tem mãe de amigo meu aí?
É punk minha gente.
E me surpreendeu então ver mães me questionando isso.
Então resolvi lembrar aqui, que a internet é um recorte, bem decorado da nossa vida.
Nessa semana houveram vários eventos na vida dos meus filhos que eu estava presente com eles, de competição a exames, de medicação a planejamento de próximo semestre. De uniforme que precisava ser lavado no domingo a noite porque ele esqueceu a comprar ovos de páscoa (ou a distancia, ou num país que não se tem a cultura do ovo).
Enfim, vida real.
Isso me preenche no final das contas, e não me senti mal por não ter postado nada.
Mas fiquei pensando nessas mães em sofrimento, que não conseguiram colocar foto apesar de achar que deviam.
Que não se sentiram honestas em colocar, porque não tinha clima em casa.
Nas que olharam o recorte dos filhos alheios, pensando que aquelas lindas crianças não devem fazer birra, não falam de boca cheia, não falam que saco mãe, muito menos, um não quero falar com você, ou um te odeio ou você me odeia.
Nas mães que "são menos mães" porque não colocaram nada, e nas que só sentem mães ou "mais mães" porque postaram.
A minha dúvida é: naquele dia trocaram um olhar, uma palavra ou um abraço?
Então mãe que ficou inadequada por um invenção virtual atual, meu abraço.
Fui convidada a ficar também, mas rapidamente percebi que era uma armadilha e pulei fora.
E já quero falar heim, que ano que vem se tiver tempo também vou postar kkkkkk
Uma coisa não anula outra.
Hoje eu quero é me indignar com essa utopia de que a rede social corresponde genuinamente a realidade.
E quero também, que esse texto não seja um julgamento a quem o fez, mas quero zelar pelo nosso direito de viver e ser mães como quisermos, dentro e fora das redes sem problematizar isso.
Já pode ser tão pesado, já temos tantas angustias, já é tão desafiador ocupar tantos papéis, realmente não precisamos que se tracem novas regras que supostamente possam medir e qualificar nossa maternidade, comprometimento ou vida.
E eu tô falando sobre essa postagem e tals porque foi por esse motivo que me questionaram se tá tudo bem, e a partir daí que me questionei e pensei nisso tudo aí.
Mas troque isso por qualquer ação "comum" que se você não fizer pode ser questionada sobre seu ser mãe e maternar.
De parto a amamentar. De alimentação a escolha de escolas e atividades. De oferta de lazer a construção de autonomia. De escolha de estilo de vida e religião a permitir que possam alçar os voos que a vida os convida.
Surreal né.
Pois é.
Que sejamos as mães que podemos ser, e que possamos ter compaixão por nós e pelas outras mães que também percorrem seu próprio caminho.
PS. Se você foi uma das que me perguntou, tá tudo bem, não fomos nós que programamos esse contexto, mas somos nós que precisamos ser críticas na nossa relação com ele.
E pra não perder a viagem:
https://www.instagram.com/p/COqSEo4tRUpvbmsWF_ltwBRMjDgk0RRt2fzU4o0/
Link de uma foto dos meus 💓😂
Caminhemos!
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