A ladainha do 20 de novembro e a sofisticação do racismo contemporâneo.

 A ladainha do 20 de novembro e a sofisticação do racismo contemporâneo, é o título mais claro que eu pude pensar para falar de consciência negra.

E antes de começar, já coloca aqui que sou uma mulher branca, de sangue misturado, neta de uma mulher preta e que se aventura a pensar e aprender sobre o assunto com tantos pensadores atuais, que generosamente nos oferecem possibilidade de reflexão sobre um tema tão complexo.

Todo ano, na minha bolha aparecem um ou outro (poucos, graças ao algoritmo), mas ainda existentes, que questionam o Dia da Consciência Negra, falando sobre a necessidade do Dia da Consciência Branca e sobre sermos todos iguais.

Respiração ajuda bastante nessa hora. Recomendo um ciclo de 3 respirações mais profundas para melhorar a oxigenação neuronal, e assim favorecer uma resposta que não seja extremamente reativa a ponto de que o interlocutor diga que somos irracionais e ignorantes (porque sim, o caminho mais rápido é esse).

E se eu uma mulher branca, experimento isso, de me sentir incomodada e ofendida com essa postura, a partir de um referencial empático mas também de consciência de classe, social e de raça, eu nem consigo imaginar as mulheres e homens pretos. As pessoas que carregam na pele o tema dessas falas. E eu não falo da cor, eu falo do peso e desrespeito, crimes perpetuados ao longo da história do Brasil, e seu processo de colonização e movimento de apagamento da cultura e povo preto.

Tem muitas maneiras e coisas importantíssimas para falarmos disso, mas vou focar aqui na consciência branca e no somos todos iguais.

Não somos todos iguais, não seríamos em nenhuma hipótese, nem entre dois pretos, nem entre dois brancos. Cultura, educação, condição socioeconômica, situação familiar, região de nascimento e vida, tudo isso nos influência de maneira muito especifica. Mas especialmente entre um branco e um preto, precisaríamos voltar no tempo alguns anos, mais precisamente 482 anos, em 1539 quando os primeiros negros escravizados chegaram na República de Pernambuco e refazer todo esse caminho colocando o branco como sujeito escravizado e não como escravizador.

ESCRAVIZADOR. 

Dói em mim ler essa palavra e me perceber em algum nível herdeira cultural desse processo. Embora em minha árvore genealógica tenha pertinho avó materna preta, perdi as contas de quantas vezes ela disse que não era preta, que era clara, e refleti tudo que isso representa e quanto ela, sem orientação e contato com alguns temas reproduziu e viveu um ser preta da maneira possível para aquele contexto e tempo.

É extremamente incomodo como mulher branca falar sobre isso, me sinto imediatamente olhada de maneira desconfiada, pelos brancos e também por pretos, já que lugar de fala e algo que precisa ser levado a sério e estamos aprendendo a nos comunicar melhor em relação a tudo isso. De maneira clara, respeitosa e principalmente esclarecedora.

Então meu lugar de fala é de mulher branca, comprometida com o movimento antirracista, racista em desconstrução, disposta a suportar o incomodo e desconforto que o tema causa, afim de usar a minha branquitude e espaço de fala para favorecer o maior esclarecimento e acesso ao tema.

E sobre o dia da consciência branca, ele pode ser todo dia. 

A receita é simples:

Que a pessoa branca, possa se comprometer com olhar para cada movimento seu, questionando sua linguagem, postura, medos, direitos, deveres, e em geral o transitar no mundo a partir do seu referencial (branco), obviamente e possa a partir disso pensar, em quais dessas esferas reproduz o racismo estrutural em que vivemos.

Sim, estrutural, estrutura toda a nossa sociedade atual, o processo de desenvolvimento da sociedade brasileira e a maneira como lidamos com nossos privilégios, ou falta de direito do outro.

Se um direito, não é de todos, ele caracteriza privilégio.

E se ser branco, num contexto de racismo estrutural é um diferencial social, ele é sim um privilégio, que pode e deve ser usado como favorecedor da reflexão e oportunidade de dissolução disso.

Nessa linha, algumas sugestões de reflexões práticas pra você pessoa branca e que quer se comprometer como antirracista:

Quando estiver em um lugar, seja ele conhecido ou não, olhe em volta e se pergunte quantas pessoas pretas você vê ali. Em que condições elas estão, as mesmas que você? 

Nos espaços sociais mais ricos, quantos pretos você vê transitando e não trabalhando apenas, num processo servil?

Nas autoridades e política, quantos negros você assiste no plenário da sua cidade, estado e do país?

Num país de maioria negra, onde eles estão escondidos?

Sobre a linguagem, quais expressões que você utiliza que podem estar reproduzindo o racismo?

Você consegue se comprometer com não utilizar mais essas expressões no seu cotidiano?

Ninguém vai parar de falar imediatamente só porque leu isso aqui, mas existe muita literatura disponível e se comprometer com isso é treino.

Quando comecei a pensar sobre, muitas vezes eu falava ainda, e depois, na sequência pensava puta merda, falei de novo.

Foi um tempo assim, "errando com consciência", e enquanto isso acontecia, eu ia também aprendendo a esvaziar minhas falas racistas, tendo em conta que já era também um incomodo ao meu ouvido reproduzir isso. Incomodo infinitamente menor, do que essa fala causa e reproduz socialmente.

E a minha sugestão prática.

Estude sobre o racismo estrutural e a história do Brasil e do mundo numa perspectiva que não seja eurocentrada. Para que fique claro, é escutar chapéuzinho vermelho na perspectiva do lobo.

Provavelmente ele diria que estava com fome, que aquela floresta era dele e que tinha direito sobre o território, e me diga, se isso não faz sentido, por que escolheu-se contar a história na perspectiva do colonizador e não do colonizado.

Do agressor e não da vítima.

E por que hoje, 326 anos da morte de Zumbi dos Palmares, ainda vemos pessoas incomodadas com o reconhecimento da data.

Por que só em 2003 a data entrou no calendário escolar, e por que ainda só em 2011 ela entrou no calendário nacional.

Enquanto isso o Brasil possui, vários feriados católicos, simbólicos e concretos muito anteriores a essas datas.

Não se trata aqui de uma competição cultural ou religiosa, não é esse meu propósito, mas quem mesmo que contou essa história que dignificou uma religião europeia que veio no combo colonizador que estruturou o Brasil em sociedade, marcando seus pilares culturais numa perspectiva muito diferente do que era o Brasil até então.

Não é gostoso de ler e pensar, mas o Brasil se estruturou em um processo colonizador de usurpação, violência, exploração, estupro, genocídio, colonização e apagamento de sua cultura original e história.

Aconteceu com os povos indígenas, aconteceu com os povos negros.

E acontece todos os dias ainda, em proporções menores, cada vez que esse racismo estrutural é reproduzido e reforçado.

Me embrulha o estomago pensar, me falta ar de imaginar e repassar tudo isso.

Não me faz bem lembrar, mas de tempos em tempos é necessário. Para que eu resgate minhas convicções e relembre de que lado quero estar nessa história, ainda que seja, 482 anos depois do começo dela.

Minha prece é que daqui 48 anos, 10% desse tempo, meus netos, bisnetos e talvez tataranetos, possam conversar sobre isso, numa mesa multicor, contando a história dos bárbaros de um Brasil racista, numa época distinta. 

Não por alienação, por desconhecimento histórico ou diminuição de um processo fundante da sociedade brasileira, como aliás, tem sido muito feito.

Mas por apropriação dessa história, reconhecimento e honra a ela, e principalmente distanciamento dessa prática e estrutura social.

“Um povo que não conhece sua História está fadado a repeti-la.” Edmund Burke

Gosto de imaginar um futuro em que tudo isso seja parte de um monumento histórico, que não nos assuste mais, mas nos conduza a seguir constantemente num rumo de progresso e humanidade, onde quem sabe, numa realidade que hoje é só um sonho, senão uma utopia, talvez possamos não ser lunáticos sobre sermos todos iguais. 

Mas talvez lá nossas diferenças não precisem ser dizimadas, ser igual não seja uma necessidade. 

Ninguém mate ou morra por isso. 

Infelizmente esse dia não é hoje.

Até lá, seguiremos aprendendo e tentando praticar. 

Desconstruir o racismo nosso de cada dia.

Abaixando a orelha quando precisa e levantando a discussão e a palavra quando pudermos.

Caminhemos,


Comentários