Conclusão do tema de setembro, agora na perspectiva da árvore.
Oi gente, tô sumidinha daqui né! Tô sabendo, mas o motivo é trabalho mesmo, novos projetos, meus estudos e organização de fim de ano para trabalhos e atendimentos presenciais no Brasil.
Mas quero aproveitar que hoje sobrou um tempinho, pra retomar nossa prosa sobre o suicídio. Sei que o setembro amarelo já passou, mas como eu disse no outro texto, pessoas se matam em todos os meses. E os dados do boletim epidemiológico da Secretária de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, Governo Brasileiro, de setembro de 2021 confirmam isso, e nos colocam diante de uma questão complexa, multifatorial, que ganhou esse mês para destaque e reflexão sobre prevenção mas que realmente precisamos pensar com mais frequência.
Para quem tiver interesse na pesquisa segue: https://www.gov.br/saude/pt-br/media/pdf/2021/setembro/20/boletim_epidemiologico_svs_33_final.pdf
Então, no outro texto, eu abordei os fatores sociais, culturais, políticos que se correlacionam com o tema.
Gosto de pensar que sempre temos a possibilidade de olhar para o tema na perspectiva da floresta, ou da árvore.
Então primeiro falamos da floresta, e hoje vamos pensar um pouquinho a partir da árvore. Do desenvolvimento dela.
E mesmo a árvore, possui sua singularidade, e diferencia das outras, ainda que dá mesma espécie. Imaginem o ser humano.
Não estamos aqui pra julgar ninguém, nem responsabilizar famílias que sofrem com essa tragédia em seu seio. Não é uma caça as bruxas, nem tampouco inventário do que poderia ter sido diferente. As coisas são como são, e acredito que numa perspectiva antropológica ou mesmo darwinista, cada um faz seu melhor, de acordo com as circunstancias e recursos disponíveis naquele momento.
E a beleza da vida tem muito a ver com essa dinâmica de contínua evolução, que se por um lado nos traz arrependimentos e remorsos, é porque temos condições e recursos de avaliar tudo numa perspectiva diferente em outro momento.
Minha intenção é muito mais um clarear da nossa reflexão, sobre o que podemos fazer hoje, para de fato pensar em construirmos relações mais saudáveis, que suportem nossa própria vulnerabilidade e a do outro, e além disso, para que mais cuidados e atentos ao nosso emocional, possamos também desenvolver próximas gerações mais saudáveis.
Que possamos pensar que inteligência emocional é tão importante quanto inteligência cognitiva e bagagem intelectual, e que possamos reconhecer que a base de vínculos seguros e um emocional saudável perpassa a qualidade dos afetos que uma criança se desenvolve.
Auto regulação é um super poder, que a grande maioria dos humanos traz embutido no seu sistema. Mas para que essa capacidade seja ativada, são necessários alguns cuidados e na sequência um permitir que isso possa ser experimentado na relação.
Ou seja, os cuidados iniciais de um bebê, a história do seu nascimento, como é acolhido e recebido, tudo isso somado a fatores genéticos e ao ambiente, constrói o que podemos chamar de assoalho emocional interno, que constituirá o chão emocional que esse individuo vai caminhar dentro de si durante sua toda sua existência.
Além disso, rapidamente após o período de exterogestação (vamos conversar sobre isso qualquer dia), ele começa a treinar sua capacidade de auto regulação. Num primeiro momento, isso se dá na interface com a mamãe ou principal cuidador, na sequência ele começa treinar sozinho. Puxar uma perninha com dor de barriga é mais do que um sinal de dor pro ambiente, é um movimento reflexal de dor e tentativa de minimizar esse desconforto através do movimento.
Logo, imaginem um bebê que com dor, e esse reflexo presente, tem suas pernas imobilizadas e não consegue fazer esse movimento coringa, que é expressivo, catártico e autorregulador. Imaginem o quanto essa imobilização pode causar em paralelo uma imobilização de recurso, que por sua vez ativa um movimento de construção de defesa, que a priori salva esse bebê mas também começa a aprisiona-lo em padrões disfuncionais para suportar a intervenção externa.
O ambiente deixa de ser um espaço seguro, para se transformar num terreno hostil.
Mas o mais interessante, é que se esse bebê que jajá será uma criança, e depois um adulto, tiver muitas dessas intervenções contrárias em relação a sua auto regulação, de forma intensa ou frequente, ele vai atrofiando essa capacidade de auto regulação, e em algum momento vai precisar de objetos externos que façam isso. Terceirizando sua função de auto regulação para a mãe, principal cuidador, babá, amiguinho, professora, namorada, chupeta, alimento, álcool, droga, pertencimento social e etc.
E quando isso falhar, esse assoalho interno pode não conseguir suportar sozinho o peso de encontrar recursos para sua auto regulação e forças para executar isso.
Você pode estar pensando que ninguém faz isso com um bebê né, mas era um exemplo didático.
Vocês podem trocar por engole o choro. Não grita quando estiver bravo. Não jogue as coisas. Não gargalhe alto. Não arrote, não faça pum. Não corra, não pule. Não chute a bola agora. E por aí vai.
Não estou dizendo com isso que crianças não tenham que ter regras ou limites, mas estou sim pensando que movimentos de auto regulação contidos gerarão outros menos eficientes e adequados, e que o caminho é entender e ajuda-los a se auto regular de uma forma melhor, para eles e suas relações.
E principalmente, pensar nos exemplos que eles tem para se desenvolver assim.
Gosto muito de um pensamento Winnicotiano, bem desenvolvido em seu livro O ambiente e processos de maturação, que tem sua edição mais recente publicada pela Artmed, que diz que é imprescindível que o bebê possa ser amplamente dependente para que depois possa exercer sua independência.
E que na sequência a essa dependência sagrada da mãe ou principal cuidador, o bebê vá gradualmente experimentando a falta. A falta da sua presença e auto regulação constante, em ambientes seguros, para que assim possa ir experimentando o desenvolvimento de novos recursos para se sustentar sozinho.
É quando ele traz um outro conceito amplamente conhecido da mãe suficientemente boa, que se ausenta não por perversão nem desconexão, mas numa resposta a sua conexão com si mesma e promove assim a experiência de crescimento desse ser.
Noções que podem parecer complexas mas muito simples de serem observadas no cotidiano.
Então vamos pensar em dinâmicas dos adultos, que impossibilitam uma criança de se auto regular.
Uma mãe ou cuidador, extremamente inseguro que protege o bebê e criança, de suas experimentações saudáveis, que trazem riscos menores, necessários ao desenvolvimento. Como se movimentar livremente, alcançar objetos, se alimentar sozinho e ir gradualmente conquistando autonomia sobre todos os seus processos cotidianos.
A superproteção é muito nociva a um desenvolvimento saudável, e infelizmente, muito comum em pais que emocionalmente adoecidos tendem a projetar seus medos e inseguranças nos filhos.
Outro exemplo são pais impacientes, que não permitem o barulho, a brincadeira, o movimento por falta de disponibilidade emocional para isso tudo. Tendem a operar numa irritação constante que gera uma tensão no ar, além de explodirem de tempos em tempos em expressões raivosas.
Esse tipo gera muitas vezes um comportamento "bonzinho" que sujeita a criança a "economizar" sua auto regulação e expressão para não "causar" essas explosões, quando na verdade elas conversam mais com questões emocionais e de indisponibilidade do adulto responsável, do que de fato em relação a algo que ela possa ter feito.
Nesses dois exemplos, a terapia e atendimento é voltada para os pais, e não criança. Uma quase regra, é que quanto menor uma criança, menos o problema é dela, e mais é algo relacional ou ambiental.
A qualquer tempo, um processo terapêutico bem conduzido, estará a serviço de reparar isso, tanto nos adultos quanto nos pequenos, mas acredito que reparações promovidas no seio familiar, tendem a ser mais efetivas, por isso prefiro atuar com um cuidador que pode reparar um processo e todo um sistema, pra uma ou mais crianças dessa família, do que diretamente com a criança, num processo de "ajustar" defesas e recursos em relação a ambientes nocivos.
E na minha experiência com crianças, os cases de mais sucesso envolvem um trabalho rápido com a criança, e um trabalho contínuo e bem estruturado com o cuidador ou família.
E escrevendo isso, me compadeço das famílias e pais, que se vem com tanta responsabilidade num processo de desenvolvimento infantil.
Minha solidariedade e afeto, isso me pesa e me pesou muitas vezes na maternidade também.
A frente do seu tempo, Winnicott nos trouxe o conceito de Holding, que de certa forma tenta suavizar a responsabilidade materna, introduzindo a rede no cuidado e salientando sua importância.
Mas ainda sim, como família e adultos, nos cabe a responsabilidade do cuidado e desenvolvimento dos infantes de nossa rede.
E é muito comum reproduzirmos nossos processos de desenvolvimento, nosso modelo de apego nos conduz a desenvolver o mesmo padrão operatório, e de novo, a terapia pode nos auxiliar nisso. A informação também, mas muitas vezes é angustiante termos informação sem sabermos como praticar e fazer diferente.
E o tempo que vivemos favorece isso.
Então sim, cuidar de nossos pequenos, favorecer a construção de vínculos saudáveis, oferecermos presença com disponibilidade afetiva real, permitir que exerçam sua autonomia em cada passo do caminho, tudo isso está a serviço de desenvolver seres saudáveis emocionalmente que possam lidar melhor com frustrações, que possam desenvolver vínculos saudáveis que o sustentem em momentos difíceis, e que possam de fato caminhar dentro de si em um assoalho sólido, que os permita descansar em paz nos momentos desafiadores e não cair em abismos internos que não consigam vislumbrar luz e saída.
Amar, cuidar, educar previne suicídio.
E reforço aqui, que muitas famílias não conseguem exercer plenos cuidados por condições sócio econômicas desfavoráveis, que não oferecem o mínimo material para que se possa pensar no afetivo.
Em modo de sobrevivência ativo, é comum que a disponibilidade emocional fique comprometida. Não podemos criminalizar a pobreza e escassez, precisamos sim combate-la para que todas um dia possam viver um puerpério protegido por exemplo.
Do ponto de vista pessoal, ou da árvore, o que podemos fazer é nos cuidar emocionalmente, a ponto de termos condições de cuidar do outro, e que esse outro sucessivamente também o possa fazer. E do ponto de vista da floresta, é tentar levar água ou condições materiais, para que outras famílias menos favorecidas tanto em condição socioeconômica quanto de informação possam também ter essa oportunidade.
E para você pai e mãe, cuidador, família que me lê. Falharemos. O único jeito de não falhar é jamais tentar, o que seria o fim da vida.
Somos humanos criando humanos. Viemos de gerações machucadas. Estamos consertando a roda com a bicicleta andando.
Mas acredito que se você me leu até aqui, a semente da esperança e do cuidado já está plantada em você, vamos florescer juntos nessa.
E perdoem-me pelo texto denso, cuidado é coisa séria.
Caminhemos juntos para que no futuro possamos encontrar em matérias de setembro, dados melhores sobre o tema.
E se tiverem interesse, falei um pouco sobre autonomia e maternidade na minha perspectiva pessoal num texto de 2018, quando meu filho começou a vir sozinho da escola.
Se tiverem interesse segue o link:
https://nasombradojacaranda.blogspot.com/2018/05/treinando-vida-treinando-para-vida.html
Se o texto te trouxe angústias ou reflexões, converse com a gente!
Sempre que quiserem, podem comentar aqui no blog e pedir que o comentário não seja publicado. É um caminho para nossa troca, e aqueles que desejam terão seu sigilo preservado sempre.
Caminhemos,
Com amor,
Mari.
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