Falar, calar e as múltiplas variáveis envolvidas
Nesse mês de setembro, vamos ampliar o diálogo sobre o tema do suicídio, tão denso, delicado e necessário.
Quando mencionei num post anterior sobre a divisão dos próprios profissionais sobre, quis dizer não só sobre a maneira de abordar, técnicas a se utilizar mas também manejo social e de posicionamento sobre.
A polêmica também se instaura sobre a dúvida da efetividade desse diálogo, com o questionamento presente da estimulação ao pensamento suicida a partir de tal. E para questões assim, prefiro seguir o protocolo das agências organizadoras em saúde e atendimento, como OMS CFP IPA e outros tantos, que nos ajudam a dar norte e contorno ao exercício da psicologia e atenção a saúde integral. E embora a principal diretriz seja falar sobre o tema, isso é algo extremamente novo. Datado de 2003 pela OMS.
E ainda sobre o calar e falar, a questão perpassa qual nossa busca de interlocução. O setembro amarelo certamente visa, estimular que pessoas em sofrimento psíquico busquem ajuda e amparo, mas sabemos que uma ideação suicida não se dissolverá facilmente na leitura de um texto. Então porque continuar falando sobre?
Para que possamos construir uma rede e sociedade que possa acolher a própria vulnerabilidade e a do outro, antes que seja tarde demais.
Para que possamos naturalizar de tal forma a esfera do adoecimento psíquico, que a vergonha do individuo em sofrimento não seja maior que sua possibilidade de ser acolhido.
Recebi esse mês três solicitações para falar sobre felicidade no trabalho, atendi uma paciente foi convidada a estudar sobre o tema, e que não teve interesse em participar porque não sentiu que seria coerente com seu momento, ouvi de outra orientanda que está super incomodada com o tom de alegria forçado que a responsável do RH da empresa dela tem utilizado nas comunicações institucionais, e por último uma amiga pediu pela 3 vez em um ano, para que o psiquiatra dela confirme que ele está inábil para o trabalho presencial, e que deve seguir em home office.
Como é que isso se relaciona ao setembro amarelo? O que eu não sei é como é que não relaciona.
Primeiro sobre as empresas, a que tinha um quadro mais grave das que me procuraram registrou 9 suicídios em sua rede direta e indireta no último ano, mas quer falar de felicidade no trabalho.
A outra está procurando falar sobre felicidade no trabalho porque os funcionários estão muito desanimados.
E a última acha que todo mundo sofreu muito com a pandemia, tem um pessoal mais velho, muitos perderam familiares, irmãos, pais, cunhados e até cônjuges, 34% está enlutado, e eles acharam que era uma boa ideia conversar e promover a felicidade no trabalho.
A intenção é ótima. O resultado é catastrófico.
A negação da nossa dor em qualquer estância e esfera, pode na melhor das hipóteses desloca-la, para depois evoluir de aguda para algo crônico.
Ninguém recomenda que você se distraia para lidar com um rompimento de ligamento por exemplo. Será que se distrair resolve uma perda de ligação com você mesmo, ou com alguém que você amou?
Bom, dito isso podemos descer mais um degrau, e falar das questões sociais e econômicas que cruzam o tema. E o cenário nesse momento não é necessariamente animador.
Pesquisas apontam maior incidência de suicídio em homens, e dentre eles um percentual alto de homens com questões sérias de dificuldade financeira, outros com situações passionais e uma pequena amostra com transtornos mentais diagnosticado. Essa amostra certamente é enviesada pelo fato que os homens também apresentam mais dificuldade em pedir ajuda, logo podemos ter nos primeiros dois grupos, situações anteriores de sofrimento emocional, mas que não foram relatadas/investigadas, de maneira que eles foram inclusos apenas nessas categorias. E aqui é importante falar que o machismo estrutural mata.
Precisamos falar também da miséria como gatilho social para adoecimento psíquico e suicídio. Pobre tem depressão sim, mas muitas vezes não tem direito nem de pensar sobre isso, segue servindo a máquina do capitalismo, picando o cartão, até o dia que não vai. E aí ganha nome, história, estigma, mas não ganha nem ali o reconhecimento do seu sofrimento. Estava normal ontem.
Vulnerabilidade socioeconômica também mata.
Tem também a população preta. Dados do Ministério da Saúde de 2016, indicam aumento nos casos de suicídio entre população jovem preta, e também um aumento na incidência em comparação a população branca. Isso sem entrarmos nos indicadores individuais de classe social, escolaridade e genero.
Racismo também mata.
Nos últimos 20 anos, o número de suicídios caiu no mundo de uma maneira geral, mas aumentou nas Américas, especialmente na fase da adultez emergente. Ou seja, o jovem em transição para a vida adulta; e embora seja uma idade de risco para adoecimento psíquico e transtornos mentais, o comparativo por regiões demonstrou maior incidência em regiões com conflitos no cenário político social, o que sugere que a instabilidade política também mata. E aí mata de miséria, de falta de perspectiva, de desemprego, de adoecimento geral sem tratamento, de não acesso a educação, dentre outros.
Eu não encontrei nas principais pesquisas que realizei sobre o tema, informações sólidas sobre população LGBTQIA+, vi informações em artigos jornalísticos mas nada que citasse uma fonte confiável. Se você tem algo sobre isso e quiser compor comigo comenta pra gente. Mas essa "negligência" na produção ou publicação desse conhecimento sobre o tema me soa como um importante sinalizador, e me lembrei de uma frase incomoda que escutei algum tempo atrás de uma paciente TRANS que ilustra bem isso:
"A gente raramente quer morrer Mari, depois que saí do armário, a gente quer mais é viver, mas as vezes não é o que a sociedade quer né".
E imagino que essa sociedade tem muitas formas de matar, e infelizmente o suicídio também é uma delas.
Então embora seja um tema que mais comumente caí em saúde mental, ele tem raízes sociais relevantes e bem importantes, que se não forem consideradas, estaremos mais uma vez recortando um tema tão complexo.
Falar pode realmente não ser o único caminho, mas não falar até aqui, tem sido desastroso.
Então pensando em quem me lê, se você ou alguém que você convive precisa de ajuda, converse com a gente!
Mas você mesmo, pode ser agente dessa reforma social, lenta, silenciosa e muitas vezes inócua na avaliação de curto prazo.
Falar é um primeiro (e pequeno) passo, o próximo é se implicar na possibilidade de fazer algo para mudar essa realidade. Se você orientar ou facilitar que uma pessoa em condição de vulnerabilidade emocional, social ou econômica, possa encontrar algum caminho ou oportunidade de mudança, você tá fazendo mais parte da solução do que do problema. Se você puder oferecer uma escuta acolhedora e verdadeira, você novamente tá no time da solução. Se puder oferecer um contato de profissional, núcleo de atendimento, clínica escola ou social, você bingou de novo na solução e não no problema.
Se conseguir não julgar, já tá trabalhando em você sobre essa mudança necessária de pensamento.
A questão é sem dúvida complexa, mas as nossas atitudes, mesmo que simples, se preenchidas de cuidado e atenção genuínas, podem de fato impactar uma vida, e que nunca é só uma. É também filho de alguém, irmão, amor, pai, mãe, amigo, sobrinho.
Mas independente disso tudo, é alguém, que mesmo sem conhecer, eu tendo a me importar.
E você?
Como é que se sente de ler tudo isso, como é que esse tema te chega.
Faz morada no seu peito, no seu coração, na sua cabeça?
Te perturba e você desconecta, te desperta compaixão e você se emociona?
O que que rola, conta pra gente! E se quiser que seu comentário não seja publicado no blog, é só me avisar.
Todo conteúdo vai primeiro para um e-mail para ser lido e aprovado, assim garantimos a confidencialidade e o respeito mútuo nesse nosso espaço.
Obrigada por ter lido até aqui, quero acreditar que quem me leu até aqui, tá no mínimo querendo ser parte da solução por mais vezes.
Caminhemos,
Com amor,
Mari.
Oi Mari, que importante olhar para todos esses aspectos, falar(!)
ResponderExcluirsobre e ampliar a compreensão do sofrimento humano. Colocar sujeito e objeto para o sofrimento aumenta possibilidade de empatia e conexão com o outro, consigo... e acompanhados fica mais possível atravessar a dor.