Agridoce


Bom, vocês já perceberam que o blog mudou, pero no mucho.

Embora agora faça parte da estrutura do Instituto Jacarandá, ainda assim serei eu, minhas reflexões, autenticidade e presença aqui.

Obviamente falarei de temas relacionados ao Instituto, Psicologia e Saúde Mental Integrativa, mas também falarei de amenidades, datas e questões que preenchem meu cotidiano. E creio que essa seja também uma das prioridades e diferenciais desse espaço, desmitificar essa santidade e mistério que é a vida de uma profissional de psicologia, especialmente alguém que sustenta um relacionamento duradouro com a orientação psicanalítica. 

Comecemos então começando.

Hoje eu não trabalhei. Não oficialmente, organizei agenda, mandei um e-mail, briguei um pouco mais com o serviço de Host do site do Instituto, mas fora isso, nenhum paciente, nenhuma supervisão, nenhum grupo.

Ontem e hoje eu fechei a agenda, para debutar oficialmente como mãe de adulta.

Embora o fechamento da agenda profissional, talvez, eu tenha realizado hoje uma prova de proficiência na maternidade e escola da vida. Explico:

Minha mais velha, saiu de casa, mudou de país, bancou seu desejo (que claro, estava abraçado com o medo), mas fez o que tinha que ser feito na hora que isso desabrochou.

E eu?! Eu estou devastada. Brincandeira. Rindo de nervoso.

Na verdade toda a vida de maternidade e educação, é um preparo para o dia de hoje. Para o dia em que, mais ou menos seguros, eles colocam suas regras, pedem o que ainda precisam de nós, e decidem tocar seus projetos a revelia dos nossos.

Na teoria é lindo né, filhos para o mundo, estaleiros seguros sejamos nós, escrevi tudo isso num texto em 17 de novembro de 2018, que inclusive era aniversário dela e blábláblá; mas na prática... complete a frase é tiro, ..... e bomba.

A gente se prepara sim, preparando a eles, treinando a autonomia, cuidando da nossa vida, fazendo análise pra quem pode, refletindo, cuidando de todo o concreto e etc.

Mas na verdade, na última noite que minha menina dormiu sobre meu teto, eu dividi a cama com ela e chorei de madrugada sentindo aquele cheiro e ouvindo aquela respiração.

Lembra de quando você não dormia, que eles choravam e você só cochilava entre uma trégua e outra. Imagine o oposto, agora eles dormem, em paz com a decisão que tomaram, e você chora imaginando a ausência, a presença da falta que eles vão inaugurar agora e que vai te convidar para mergulhos que você interrompeu, ou simplesmente, não pode fazer 22 anos atrás.

Veja, está tudo certo até aqui, se você fez um trabalho mais ou menos, é razoável que saiba que esse dia chegará, mas já aviso, dói.

Dói um pouco mais, quando calculamos a distância e sabemos, que não haverão cafés da manhã surpresa, almoços improvisados, ou jantares de pequenas celebrações. Eu chorei de dor, e de remorso. 

Que dó da minha mãe e da minha sogra. 

Mas agora é minha vez, e meu pedido pra ela, é que se lembre porque saiu. Corra atrás dos seus sonhos. Se faça feliz, que assim naturalmente serei feliz.

A saudade é o preço do amor. Nosso vínculo sustentará nossa conexão. Nossas almas seguirão entrelaçadas e nossa telepatia atuante.

Em 1998 eu pari uma menina, que pariu na marra uma mulher.

Não sei ao certo quando ficamos adultos. No primeiro salário, no primeiro bancar de responsabilidade, no nascimento de um filho, quando descobrimos consciência de classe e social, na primeira vez que trabalhamos de ressaca ou com cólica, enfim, não sei bem. Mas sei que muitas dessas minhas experiências de treinar ser adulto, estavam em paralelo com ser A mãe dela.

Hoje sou grata, honrada e orgulhosa desse ser que caminha por aí, com cabelos ao vento e um ar de princesa que eu jamais tive. Que me ensinou tantos termos, que me ajuda na desconstrução necessária ao nosso momento social e que me atualiza sobre os memes e tudo que é hype.

Mas o ninho ficou 50% vazio, e embora meu coração siga preenchido, de amor, esperança e sensação de dever cumprido, também tem falta. Tem a presença da ausência dela, tem meus olhos inchados, e o Zeus triste pela casa. Tem amor rimando com dor. E tem saudade, essa palavra que só existe em português e Thanks God, eu sou brasileira; porque tendo palavras já é difícil, o que seria de mim sem poder expressar essa avalanche de emoções agridoce, que a vida me traz agora.

Eu vou sobreviver, nossa relação vai mudar, pra melhor, sem dúvida. 

Como é potente uma mulher, com uma mãe forte internalizada. Mas como é só uma mulher frágil, a mulher que outrora foi forte para que pudesse ser uma guia internalizada.

Detesto dar conselho, acho mesmo que eles são vis e em vão, mas se servir de alguma coisa.

O passado é história.

O amanhã é mistério.

O hoje é dádiva. 

Cafunguem o cangote dos seus filhos, façam sanduiche deles (se não souber como me perguntem que faço um passo a passo), escutem histórias repetidas e amem amem e amem. Porque se alguma coisa, um dia, me fortaleceu pra esse momento, além do investimento na minha própria vida, tem a ver com a certeza que me joguei e vivi profundamente cada presente, de cada fase dessa história, que nasceu na minha, foi personagem principal por um bom tempo, mas que agora assume um roteiro independente, com tudo pra dar mais que certo, e mais uma vez me ensinar, sobre o que é ser adultecer e amadurecer, independente da contagem do tempo chronos.

E eu devo assumir que gosto de agridoce, nos sabores, vida e emoções. 

Há de se ter espaço e combinação pra tudo, e desfrutar, de cada fase e momento. 

Encerro com um suspiro comprido mas com um sorriso, de ver a imagem dela quando fecho os olhos.

Se você já passou por isso, me conta como foi. Se está pra passar, volta aqui quando chegar a sua vez, releia esse texto e busque suas próprias palavras ou forma de expressão pra esse momento de transição; é só mais uma, das muitas passagens da vida.

Como diz Guimarães Rosa:

"A vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem".

Caminhemos,

Mari.

Comentários

  1. Mari, fiquei agridoce, senti daqui as dores desse parto... quanto sentimento!


    Explica, por favor, como é o sanduíche de filho? :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O nome já é sugestivo, vamos precisar de 2 fatias de cuidadores e recheio de criança. Recomendo a cuidadora (o) mais forte ir por baixo, criança no meio, e outra fatia de cuidadora (o) por cima. Se tiver frio e a criança gostar ainda pode enrolar no lençol ou edredom. Brincadeiras da receita de preparo a parte, crianças com questões sensoriais podem se beneficiar muito, os agitados que pedem contenção com afeto também, e depois que eles aprendem, pedem sempre que precisam, é lindo ver eles se auto regulando e pedindo toda a carga de afeto (por que não nutricional?), que o prato/brincadeira oferece. É uma integração de toque terra da biossíntese com o lúdico e exercício de contorno. Aqui faz sucesso. Fica uma delícia quando acompanhado de gargalhada.

      PS. O ponto certo é no olho e sensibilidade. Tempo de cada um é relativo, então dura enquanto a criança tá curtindo, e as vezes, eles se auto regulam rapidinho e pulam antes do que imaginamos, aí podemos pedir sanduiche da gente mesmo, se for caso de precisão da criança que tá dentro do adulto. :)

      Excluir

Postar um comentário