Porque o hoje é presente.

Faz muito tempo que não publico, mais do que todas as vezes.

Nem vou me desculpar ou justificar, vida real como a de todos, e desde o inicio o blog era pra ser um espaço de compartilhamento, elaboração e prazer e assim o mantenho.

Propositalmente eu coloquei publico, porque escrever para mim é quase algo diário mas nem tudo que escrevo tem capacidade de passar pelo crivo da minha exigência.

Nem tudo acho necessário, interessante ou mesmo possível de ser compartilhado publicamente.

E toda essa reflexão me permite entrar em contato com o fato de que escrevemos para nós, e publicamos para os outros.

Ou de que, escrevo para mim e publico para o outro.

Parece óbvio, mas pensa nisso mais um pouco. Expande a máxima para a sua vida.

Pensa o que você faz por prazer e o desse prazer é compartilhado, e depois disso, se ainda é compartilhado, pense em por quê ou em quais circunstancias.

Se esses pensamentos não te perturbarem comece a reflexão de novo, porque você provavelmente fez isso errado.

Por hoje então, escrevi pra mim mas publico pra quem puder ler e a partir dessa leitura sentir um tanto dessa energia que me percorreu hoje.

Resolvi contar que minha avó me ligou e isso me causou tanta alegria que mesmo tendo atendido muito, supervisionado e estar quase esgotada, ainda sobrou disponibilidade afetiva.

Minha avó é uma senhora de 82 anos, logo vocês podem imaginar que domínio de tecnologia não é uma das habilidades mais experimentadas por ela.

Ela me ligou de voz, eu abri a câmera pra ela, mas ela não conseguiu abrir pra mim. Ok!

Levou um tempo pra ela conseguir me dizer se estava vendo minha foto ou eu mesma, porque ela dizia, estou te vendo e eu só via a foto dela. Ok!

Foi quando ela perguntou se eu estava na cozinha e sim, ela estava me vendo. Wow!

Segundo ela minha voz estava baixa, mas provavelmente era porque a bateria dela estava fraca e quando tá fraca assim o volume fica baixo. Ela já percebeu isso outras vezes. Ok!

Conversamos por quase meia hora, ela contou da vida dela, perguntou da minha, contou do queijo que gosta, falamos do queijo que eu achei, do doce que comi, dos doces que ela gosta, que o aniversário dela tá chegando, que ela não sabia se ia fazer 83 ou 84, confirmei que era 83, ela disse que todo mundo fala que ela tá nova e que é por isso então. Falamos do tempo, daqui e de lá, do tio, da tia, da prima, da casa, da cachorra, da médica, das dores, do remédio. Falei que domingo ligo pra ela de vídeo pra ver se a cara mudou, já que aí ela estará fazendo 83 mesmo.

Estávamos quase terminando, ela lembrou de perguntar se tava tudo bem;

Na verdade era a segunda vez, e lá vamos nós falar tudo de novo.

Ela é lucida, mas a emoção e a tecnologia perturbam as ideias e aí ela repete. E tudo bem, falamos de novo um pouco de como estava tudo bem e aí logo nos despedimos. Da mesma forma, eu falando que domingo ligo de vídeo pra ver se a cara dela mudou com ela ficando mais velha. E ela disse que eu já tinha falado isso. Sim, a emoção e a tecnologia as vezes faz isso. A gente repete.

Eu fiquei tão feliz com a ligação dela. Com ela ter conseguido ligar (ainda que com alguma ajuda). Dela estar a toa e ter pensado em ligar pra mim, de ter calhado com a hora do meu almoço e eu ter podido atender. Do afeto trocado, da risada gostosa compartilhada, dos assuntos e principalmente por poder contar com a presença dela na minha vida.

E tenho duas avós, as duas estão lúcidas, essa um pouco mais.

É sempre um prazer pra mim estar com elas, um aprendizado e um contato que me renova.

Hoje a minha meditação da manhã foi sobre reconhecer a abundância de vida ao nosso redor e hoje, nessa ligação a abundancia se fez presente e concreta.

Ela tá desconfiada que vai ter festa, como ela não me contou eu percebi que a programação tá meio surpresa e tratei de brincar que não sei não, e se vai ter não fui convidada.

Brinquei que dessa vez não ia estar lá, mas pensei que ela com certeza vai estar aqui.

É muito amor e muita alegria, valia a pena compartilhar e recomendar, que tendo avós, vocês as desfrutem.

Eu sempre tentei ser próxima, mas naturalmente não conseguia ser tanto quanto eu queria. Perdi risadas, temas importantes, conflitos razoáveis mas percebo que em dois momentos a vida nos aproximou. Na minha infância e agora, na "infância" delas.

E o ciclo vital da vida assim se dá. De infância a infância nos conectamos.

Os recursos que tenho hoje são escassos mas efetivos.

Se você tem mais deles ao seu favor, usufrua! Desfrute!

Beijo, abraço, colo, passeio de braço dado pra não cair. Presente material, presença.

O tempo passa rápido, um piscar de olhos e será nossa infância de volta. A delas já será terra e logo nós já seremos sementes;

Texto escrito em dezembro, sem a data precisa (talvez 12/12) mas com a presença do afeto eterno que me preenche o coração hoje.

M.R.



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