Sobre o legado feminino e suas controvérsias

Eu queria muito escrever alguma coisa hoje, já faz um tempo que estou sem tempo e disponibilidade emocional para isso.

Nada demais, a roda da vida de sempre, um imprevisto de saúde com uma pessoa amada da família, marido no Brasil, pacientes e supervisões, filhos, risadas, workshop, choros, limites, recuos, carro quebrado, carro alugado, TPM, livros, séries, falta de sono, declaração de imposto de renda, excesso de sono, mais um TCC quase, dieta, confusão de sentimentos, saudade da família, escutar minha cabeça, escutar meu coração, vai pra Dallas, volta de Dallas, terapia, exercícios, estudar, hidratação de cabelo, face time, espinhas, esporte de um filho, academia de outra, encontrar as amigas, fazer mercado, orgânico tá mais caro, melhorar inglês hora que sobra e por aí vai.

Por aí vai mais uma estação, estamos chegando na primavera. O verde está voltando, e meu coração vibra a cada nova arvore do quintal que se refaz, mas não falarei disso hoje.

Gosto tanto da primavera que ela merece um texto só dela.

Hoje vou falar de mulher, aliás já comecei né. Aquela rotina descrita ali em cima é a minha das ultimas semanas, mas guardadas algumas variáveis pessoais, a maioria das mulheres conseguem trocar e apresentar a mesma quantidade de coisas.

A principio esse seria um tema fácil, dado que até onde sei sou muito mulher, mas passada a excitação inicial, é bastante complexo falar de algo que você realmente é, e pode jurar como é.

Sim, pra você.

Mas existem outras milhões de exemplares dessa mesma espécie, perto, longe, queridas, nem tanto, brancas, amarelas, negras, asiáticas, latinas, americanas, umbandistas, católicas, evangélicas, espiritas, todas elas com toda essa ciência pessoal sobre ser e saber o que é ser mulher.

Cada uma um universo em si, guiadas por suas crenças, desenvolvidas em sua cultura, educação, relação familiar, tempo.

Diante disso, como eu posso dizer que ser mulher é isso.

Que ser mulher é aquilo.

Que isso, faz uma mulher mais mulher que aquilo.

Ou que aquilo não é de mulher.

Muito difícil.

Cada mensagem lindinha que eu recebia hoje falando sobre o ser mulher, era um check que eu dava ou não na minha vida. E a maioria vinha com elogios, mas disfarçando regras, ordens, conceitos.

Eu posso querer fazer tudo, e podendo fazer tudo não querer fazer nada.

Eu posso ser uma mãe maravilhosa, mas que Deus me perdoe, existem mães que são o cão.

Sim, as mulheres são as mães do universo, mas e aquelas que não querem, não podem ou esqueceram de ser no tempo hábil.

Sim, as mulheres são macias, mas e as que passaram por tantas asperezas no caminho que hoje amedrontam os mais espinhosos dos cactos.

Sim, somos delicadas e cabemos em muitos lugares, mas e aquelas Extra G, seja em tamanho ou peso, mas que mantem muitas vezes a alma e os olhos mais delicados que se pode contemplar.

O tempo todo, eu sentia empatia por alguma de nós que estava sendo injustiçada.

E pensando nisso, não achei conveniente traçar uma risca sobre o ser mulher.

Pensei em falar do vir a ser mulher, do respeito que precisamos, da liberdade e da beleza da descoberta.

Pensei em escrever no sentido de desconstruir alguns conceitos, libertar de outros e mergulhar numa reflexão que nos livre de julgamentos.

Conosco primeiramente e na sequência com as outras mulheres.

Pensei que precisamos muito do respeito masculino, mas ainda mais do posicionamento e respeito feminino.

Mulheres geram e educam homens.

Na maioria das casas existe uma mulher arrimo de uma família, seja ela casada com homem, sozinha, ou mesmo casada com outra mulher. Seja ela avó, mãe, irmã, tia ou vizinha.

Sendo assim, eu não quero trazer mais uma responsabilidade a nós, somos sobrecarregadas, trabalhamos dobrado, ganhamos menos, somos pressionadas socialmente, a estar magras, lindas, formadas, mães antes do 35, orgânicas e etc. Isso na melhor das hipóteses.

Tem as nossas pares que estão lutando pra ganhar o pão, educando filhos sozinhas, lidando com preconceitos, subindo e descendo morros, engolindo de tudo desde comida rápida até muito desaforo e  choro.

Mas mesmo com tudo isso nas nossas costas, eu não consigo ver um mundo melhor, sem que nós nos dediquemos a fazer ele melhor.

Nós mesmo. Que educamos filhos, amigos, maridos, e até nossos pais muitas vezes.

Nós que mostramos pra um homem que ele não é ameaçado pela homossexualidade do outro.

Nós que dizemos pro amigo, primo, irmão, paciente que aquilo não é jeito de se referir a nenhuma pessoa. Que ela não é puta, vadia, vagabunda. Mesmo que a gente não conheça a moça. E mesmo que ela seja uma profissional do sexo. Vida fácil pra mim é outra coisa.

Nós que ensinamos os meninos a não tocar uma menina contra a vontade dela. Que ela pode jogar videogame, futebol, e o que mais quiser. Que ela avançar nas brincadeiras deles não é uma ameaça, é uma composição mais rica. E é assim que eles aprendem a no futuro respeitar a colega de trabalho da mesma posição que dá uma sugestão porreta.

Eu sei, nós temos tudo aquilo que eu descrevi na nossa rotina pra fazer e cuidar, mas se gastarmos um tempinho com isso. Cada uma de nós. Talvez tenhamos no futuro filhas, noras, sobrinhas e afilhadas menos sobrecarregadas. Menos abandonadas. Menos depreciadas. Menos violentadas. Menos mortas.

Mais felizes. Mais competentes. Mais reconhecidas. Mais amorosas.

Mais mulheres no sentido do profundo contato com si mesmas.

Ao mesmo tempo podemos ter homens mais sensíveis. Mais cooperadores. Mais pais. Melhores amigos. Melhores irmãos. Melhores humanos.

Mulheres também melhores humanas.

Eu sei que é árduo, mas é um caminho necessário. Um caminho único talvez na salvação de uma sociedade que vem caminhando com dificuldade, tropeçando em seus clichês e regras.

Sim, eu acredito que a mulher sábia edifica o lar, e que a tola o destrói com as próprias mãos.

Mas não posso fazer ninguém acreditar, não posso querer que todas sejam sábias, não devo desejar mal as tolas, e muito menos dizer quem é uma e quem é outra.

Que cada uma saiba da sua verdade, e acolha o dom que recebeu. Que esse dom possa ser revertido ao universo, dedicado ao cuidado deste, e que saibamos que mesmo que façamos nada, se conseguirmos nos olhar, encarar de frente, olho no olho e assim nos curarmos, já curamos uma parte desse mundo.

Que possamos encarar nossa responsabilidade agora, para não lidarmos com culpa no futuro.

E que possamos trocar nossas culpas por responsabilidade e feito isso, soltar o que não seja uma coisa nem outra.

Não precisamos fazer isso sozinha.

Mães, amigas, irmãs, primas, avós, colegas, profissionais de todo tipo, psicólogas, terapeutas...

Todas precisamos aprender a pedir e dar ajuda.

Há um tempo atrás, ainda no Brasil, eu estava na fila do mercado e tinha uma mulher grávida de uns 8 meses, com uma criança de um ano mais ou menos na cadeirinha do carrinho. Era um menino, fazia uma birra homérica, deveria estar com sono, com fome, cansado do mercado. A mãe não sabia o que fazer, colocava compras tentava falar com ele, tentava se desculpar, parecia que ia começar a chorar junto a qualquer momento. E seria legítimo.

Eu falei pra ela ir pegar o filho e ficar com ele, tirei as compras, passei, empacotei, coloquei no carrinho, e falei pra ela que meu filho ia empurrar pra ela até o carro.

Ela só chorou. Não conseguiu falar nada. Assentiu com a cabeça e depois perguntou meu nome.

As lagrimas daquela mulher e seu olhar surpreso mexeram muito comigo.

Não pelas dificuldades que ela estava passando somente, pelo cansaço da gestação, pelo filho de colo ainda, mas pela expressão dela num misto de estranheza e gratidão, que me fez pensar o quanto ela está acostumada com não ser ajudada, com ser julgada, olhada como uma mãe ruim e por aí vai.

Não somos ameaças uma pras outras. Somos reflexo.

Somos o choro que a outra engole. A raiva que a outra sufoca. A violência que ela sofre.

Estamos conectadas e tudo isso cabe na nossa sensibilidade e no nó que nos vem na garganta as vezes sem saber.

Na dúvida de como melhorar se ajude e ajude uma mulher.

Se angústia não passar, não tem problema. 

O fruto já veio e é tão legitimo e encantador que não tem problema em ser filho da angústia.

Guardadas nossas diferenças, temos em essência nossas semelhanças.

Sangramos. Choramos. Amamos.

Vale a pena olhar mais pra isso e não para o que nos distancia.

Por último, que possamos nos conectar com a força do feminino.

Uma mulher forte não é uma mulher macho.

É uma mulher que se conecta com a profundeza, beleza e força de fêmea.

É difícil e árduo, mas se papai do céu me deixar escolher serei mulher em quantas vidas puder e desejo que hoje, um pouco mais, cada uma possa olhar mais para o prazer do que para a dor de ser o que é.

Não negamos a dor, convivemos com ela, mas que possamos ser leves e alegres, sempre que for possível.

E pra encerrar uma citação do Hellinger que eu gosto muito, e que concentra muita base e verdade sobre tudo isso.

" Cada mulher que cura a si mesma contribui para curar a todas as mulheres que a precederam e a todas aquelas que virão depois dela".


Por hoje é só, até breve.

Já ia esquecendo... 

Feliz dia internacional das mulheres. Sinta meu abraço, e abrace as que puder.




Comentários

  1. Começou tão basico e foi lá pro fundo do coração... gratidão...

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  2. Lindeza, este é o texto mais lindo que já li, sobre ser mulher.
    Você é meu exemplo de mulher. Te amo muito.

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