Cinco de janeiro

Hoje é uma data especial no meu relacionamento. Fazemos aniversário de casório.

Estamos juntos a pouco tempo, relativamente. Há 4 anos atrás estávamos quase nos conhecendo, mas não planejávamos nada disso.

Vez ou outra sonhávamos, desejávamos mas não ousávamos pensar que poderia ser real.

Vinhamos ambos de relacionamento e vivências sofridas, em aspectos distintos mas ainda assim desafiadores.

E em outros aspectos, completamente diferentes, eu também era muito desafiadora;

Eu de tanto estar sozinha não acreditava mais muito em amor conjugal, ele de tanto estar acompanhado de maneiras difíceis também estava descrente.

Foi um encontro bonito, e nos encontramos num momento de muita mudança para ambos.

Estávamos em franco processo de revisão e mudanças, mergulhados em uma reforma íntima que nos possibilitou esse encontro.

Nos encontramos a partir do nosso melhor, e não de nossas neuroses, e isso é muito raro, e foi fruto de muito trabalho pessoal de ambos.

E uma vez que isso tenha acontecido, é difícil de reconhecer, aceitar e conviver.

É pra ser maravilhoso, mas não é. Assusta.

Quando recebemos primeiramente o que precisamos demoramos a entender que isso é melhor do que o que pedíamos.

Em virtude disso tivemos um longo processo seletivo, quase 4 meses de analise (eu não ia deixar de mencionar isso amor, Sorry!)

Sim, somos perseverantes.

Foi um daqueles processos seletivos que tem entrevista em grupo, três individuais, testes psicológicos, redação, dinâmica, estudo de caso e aplicação prática.

Eram os nossos machucados falando por nós. Lembrava sempre do meu orientador da época, dizendo:

Xiuuuu, deixa o passarinho pousar. Não espanta ele não.

Eu deixei. Graças a Deus.

E quando tive os meus 5 minutos de impaciência ele agiu. Graças a Deus².

Foi um começo suave, no ritmo que precisávamos, embora eternamente eu vá jogar isso na cara dele.

Esse ano o tema do workshop de fim de ano do instituto que continuei minha formação como terapeuta foi relacionamento.

Todos os dias alguém me chama para falar disso.

O meu está nesse momento de celebração, e mudei minha vida por ele e a partir dele.

Diante disso tudo, achei que o assunto merecia um texto.

Como o meu companheiro também merece as palavras que aqui são colocadas em relação a ele.

É muito comum ouvirmos que a Terra é um planeta escola, de expiação.

Para os espiritas e espiritualistas estamos passando por um processo de transição.

Para outros estamos esperando Jesus voltar e nos preparando para isso.

Para outros ainda, estamos nos desenvolvendo e melhorando para conquistar o céu e vida eterna.

Enfim, seja qual for a crença, fica claro que as lições para alcançar o tal desenvolvimento, crescimento e evolução são os relacionamentos.

Estamos aqui para desenvolver e crescer com nossas emoções, e nada afeta mais essa área se não os nossos relacionamentos.

O ser humano é um animal relacional, um ponto comum entre as diversas abordagens psicológicas é o quanto nos desenvolvemos mais ou menos a partir das nossas relações.

Especialmente as primeiras.

É o animal que mais aspira cuidados dentre todas as espécies.

Darwin dizia que filhos impotentes geram pais mais inteligentes e treinados, o que por si só evolui a espécie. Ele tem suas razões.

Mas creio também que o filhote mais dependente, que leva um ano em média para se desenvolver uma mínima noção de individuo também é assim para nos ensinar a amar.

A natureza para mim é muito mais sentimento que pensamento, e não é a toa que se manifesta assim.

O desenvolvimento relacional é algo que está no nosso cerne.

Tanto faz se estamos falando em estímulo e resposta. Construção de caráter. Conteúdo e continente. Teorias de desenvolvimento sexual. Interação com ambiente de maneira mediacional. Arquétipos. Sistemas familiares.

Enfim...

Sartre diz que não importa o que fizeram do homem, e sim o que esse fez do que fizeram dele.

Mas ele também concorda que são necessários recursos para se estabelecer um projeto diferente de uma determinada cultura.

É nas vivências dos nossos relacionamentos, influenciados e construídos pelo que recebemos e por como fomos recebidos nesse mundo, que todo esse desenvolvimento se dá.

Especialmente na intimidade. No dia a dia menor. Compartilhando os pequenos momentos.

As pessoas são maravilhosas com o próximo distante, mas o relacionar-se com o próximo próximo é normalmente muito difícil.

Primeiro porque precisamos nos reconhecer como individuo, sabermos de nós, para posteriormente conseguirmos nos relacionar. Se não for assim, nos relacionamos com continuidades do nosso ego, ou ainda com projeções o tempo todo.

Se relacionar com um outro individuo, inteiro, com outra história, com desejos e aspirações para além da nossa expectativa é coisa bem séria.

Requer uma noção profunda de si mesmo e um respeito e disposição constante em direção ao outro.

Mesmo com tudo isso, o contato próximo gera atrito. Lei da física.

Relacionar-se é estabelecer um vínculo com ação. Isso por si só já é problema suficiente.

Tem uma estória que gosto muito:

Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio.

Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor.

Por isso decidiram se afastar uns dos outros e começaram de novo a morrer congelados.

Então precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros.

Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos.

Aprenderam assim a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro.

E assim sabiamente sobreviveram.

Desconheço o autor, mas acho brilhante e ele expressou muito bem relacionamentos a partir dessa estória.

É uma ótima maneira de aprendemos plantio e colheira, ação e reação.

Espinhos com calor. Espinhos por calor.

Calor.

Nisso tudo o nosso olhar, ensinado pelas nossas vivências, construindo ou não...

Olhando mais pro espinho ou pro calor.

É muito difícil reeditar uma história. 

Desenvolver confiança e uma relação de afeto com alguém que foi privado ou trapaceado em suas primeiras relações.

Trapaceado no sentido que esse ser era aberto totalmente e seria desenvolvido plenamente se recebesse o amor bendito e necessário.

Um ser humano que não teve amor e cuidado, vai precisar de muito mais amor e cuidado que o normal para compreender que isso existe e é possível.

Só se ensina alguém, especialmente, uma criança a amar, a amando.

Os adultos machucados, são em si crianças machucadas, mas com recursos práticos e defesas construídas de maneira muito rígida.

Uma tendência forte a não acreditar no amor, e uma crença que os guia pela vida dificultando que este chegue até eles.

A resposta é amor. A resposta é amar.

Relacionar. Compartilhar. Amar. Re-amar.

Re- amar sempre.

Como um remar mesmo, no rumo de algo.

Então aqui 3 conselhos para 3 adultos diferentes.

Sendo adultos e pais, adultos e tios, adultos e avós, adultos e primos, adultos e educadores, adultos e amigo de quem tem crianças, compartilhe o amor. E ajude a desenvolver ambientes e situações que promovam amor, confiança e segurança.

Sendo adultos em busca de relacionamentos, perseverem na próxima vez que lidarem com espinhos. Expie os seus. E comuniquem-se. 

A comunicação é a mãe suficientemente boa dos relacionamentos. Sempre que necessário, utilizem palavras e feito isso algumas vezes, em uma imensidão de outros momentos elas serão dispensadas.

E por ultimo, aos adultos crianças machucadas. Uma pequena abertura pode mudar muita coisa.
É impressionante o que acontece quando aceitamos a proposta do universo de vida, entrega e amor.

Então por mais difícil que possa ser, uma abertura qualquer ao amor promoverá uma reforma.

Um amor por animal, por uma obra, por um trabalho, por alguém, por uma família, por uma ação.

Não dificuldades pense no resquício de amor que encontrar. Seja ele qual for. Se apegue a isso até que outros amores possam surgir.

Esses pensamentos gerarão sentimentos e sensação, que por sua vez guiarão e criarão um campo energético, que por sua vez o conduzirá pela vida aproximando e repelindo. Gerenciando seus encontros. Construindo assim suas horas, dias, semanas, meses, anos e a vida toda.

Se hoje a situação não é boa, se muitas coisas foram difíceis pelo caminho, é hora de se olhar, de cuidar do amor não recebido e assim alterar esse campo para futuros encontros melhores. Para trocas mais genuínas. Para encontrar o amor pelo amor. 

Para que o calor seja tanto que os espinhos fiquem pequenos.

Para que ninguém, de nenhuma espécie precise congelar.

Se for difícil, e eu sei que é, busque uma boa terapeuta para isso. 

É o melhor investimento do mundo.

Acredite:

Existe vida fora e além disso. Existe muito amor nesse mundo. 

Que tenhamos olhos de ver. Que estejamos abertos a receber.

Hoje também é um dia especial para minha baby, de uma maneira diferente e extremamente parecida ela também se abriu para o amor novamente. 

Também foi muito machucada. Também se cura diariamente. E também (e ainda além), saberá olhar mais para o calor. Ela é profissa nisso.

E agora no nosso relacionar-se, compartilharemos mais uma data.

E que quando estiver bem cansada, ainda...exista amor para recomeçar, pra recomeçar!

(Valeu Frejat)


E agora, finalmente, voltando ao marido.

Meu amor e gratidão.

Nossa história começou bem antes desse dia, provavelmente em outra existência. 

Está continuando há quase 4 anos, e teve um marco formal há 1 ano atrás.

Ele colocou o nome dele no final do meu, mas no começo de tudo estava seu amor e dedicação.

Se ajustou tão bem com meus espinhos e calor, que hoje embora eu carregue seu nome ele carrega meu coração e expressão por aí.

Feliz dia meu amor. Espero que esse você leia até o final de uma vez kkkkk

Mas tudo bem se não for também. Take your time.

Com amor, 

e ainda um um pouco mais hoje.









Comentários

  1. Que lindas palavras meu amor, obrigada por essa admiração, pelo amor e presença. Te amo muito!

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