Arco-íris anual

Mais uma segunda.

A  cabala hoje acordou ao meu favor, e disse que era tempo de silêncio e pausa. Foi uma delícia ler isso as 9:30h, quando eu já tinha matado o inglês. É sempre bom encontrar teorias que nos justifiquem, e por hoje a cabala me justificou. Agora sou cabalística desde criancinha;

Ontem fez três meses que cheguei aqui, e se virasse um filminho ia ter que ser passado pra frente em 16x; tantas tantas tantas coisas. Muito boas, maravilhosas e ao mesmo tempo tão punk.

As crias estão se adaptando, as possibilidades de trabalho pra mim estão clareando, logo logo deixo de ser a motorista da rodada, logo logo também continuo na especialização, enfim tudo ok. 

O lance é que essas questões racionais e claramente progressivas estão sujeitas a interpretação que a Mari tem que fazer disso tudo, e no centro da adaptação as coisas não são tão simples. 

Lembra as ilhas do Divertidamente (filme), então, aqui deveriam ser umas 12. Caíram umas 9, três estão em reforma com uma baita ampliação, e umas 5 sendo construídas. Detalhe: temos operários falando português, inglês e espanhol, ou seja, vez em quando dá umas travadas brabas. Todo mundo joga a camisa e chuta o balde. O mecanismo de emergência é acionado, a enxaqueca vem e pronto, eles conseguem me colocar pra dormir e acalmar o trem todo.

Eu não me arrependo, pelo contrário me sinto virando gente grande (pros lados não, por favor!)... mas não posso mentir que seja algo simples e fácil. 

Nesse corre todo, passou o tal setembro amarelo e agora os suicidas já podem morrer em paz.

Eu não escrevi nada sobre mas li muito. E me assustei demais. Corri mandar mensagem pros meus emergentes. Amigos, pacientes, as bombinhas armadas que caminham silenciosamente por aí. Era e é o que podemos fazer por eles, por nós, pelo tema e pelo mundo. Cuidar dos nossos e de quem podemos.

Isso não é uma crítica a campanha, pelo contrário. Minha queixa é sobre a pontualidade e sensibilização programada e com prazo de validade dela. Temos que pensar sobre isso o tempo todo. A cada segundo, a cada minuto.

Aliás em outro momento vou escrever sobre essa emoção sazonal. A renovação pascal. A caridade no natal. A sensibilização com o suicídio nessa época, lindos posts mas as famílias continuam tampando o sol com a peneira. Deixando a psicoterapia pro próximo mês, priorizando outros custos, achando que vai passar. 

As vezes passa, as vezes não. Quem vai pagar pra ver?

Como é difícil remediar, eu fico pensando na responsabilidade de cada um na prevenção disso. No cuidado com o outro. No olhar além da superfície. No que dizem os desânimos,  os não às saídas, as apatias e as agressividades. A raiva é um esconderijo seguro para tristezas profundas.

Tem uma música do Vinicius de Morais, cantada pelo Toquinho, lindíssima. Veja aqui: Um homem chamado Alfredo

Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão.
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada...


Tantos Alfredos caminhando por aí.

Ninguém disse que é culpa nossa, mas também nunca ninguém vai nos absolver da responsabilidade do cuidado com o nosso próximo próximo.

É tão pouco. E um pouco tão difícil.

A depressão hoje já é considerada a doença mais paralisante da última década e a tendencia é aumentar.

A vida virtual é um ingrediente potente disso tudo, somado a outros fatores.

A felicidade alheia estampada e reforçada nas redes criam uma sensação ainda maior de não pertencimento e desajuste.  

A vida alheia é perfeita. Pura ilusão.

Nem a alheia tão perfeita, nem a sua tão imperfeita assim.

No livro Alice ela escolheu a ilusão, e nós também a escolhemos o tempo todo. Não é que isso seja ruim, pode ser um alivio, uma distração. Mas noutros momentos soa como sentença, condenação.

De perto ninguém é normal. Ninguém é tão feliz. E o lance mór é se concentrar em você e quem corre contigo.

Eu desconfio muito da felicidade estampada. Das selfies diárias. Da necessidade de declaração da alegria o tempo todo. 

O humano manifesta sua dor de duas maneiras bem claras. Via exibição de algo (que muitas vezes pode ser contraditório), uma vez que todo excesso pode esconder uma grande falta.

Mas também com uma ausência. Um sumiço.

É só olhar e ver.

Ninguém que se mata quer de fato acabar com a vida. Quer sim, acabar com a dor, que naquele momento parece maior que tudo. É o fim da linha, a não alternativa da vida sem dor, e a ilusão do alivio com a morte. 

Qualquer que seja a religião, pelo menos de base cristã, o suicídio é condenado, mas para algumas ainda ele é a própria condenação.

O sofrimento parece maior que tudo... e que sofrimento é esse? O que justifica uma ação dessas?

Só não há remédio pra morte... Literalmente.

Escutei esse mês uma palestra sobre o assunto com um querido psicólogo que confio muito. Ele apresentou um dado que me assustou e fui conferir. A pesquisa é da Universidade de Harvard e diz que quando pesquisado o período de primeiras décadas de vida, a fase que mais registrou aumento de suicídio foi entre 10 e 14 anos. Isso mesmo 10 a 14 anos. É só dar uma olhadinha no Scielo que você acha.

E o que passa uma criança dessa idade, que justifique essa ação?

Guardadas as circunstancias de abuso e realidades muito difíceis de serem suportadas, a maioria dos casos envolviam situações corriqueiras que muitos seres já passaram e ainda vão passar. Um término de primeiro namoro, uma nota muito baixa, uma briga com coleguinha. Questões aparentemente "bobas". 

É inacreditável mas precisamos olhar pra esses pequenos com compaixão e pensar em quais são os ingredientes dessa situação.  

Eles estão crescendo incapazes ou no mínimo deficientes em lidar com frustrações.

A ausência do treino em ser frustrado. Sim, é treino.

Crianças precisam ser frustradas. Precisam de não. Precisam esperar o aniversário para ter o que querem e aprender a suportar o desejo dentro de si. A lidar com a expectativa e ansiedade. Precisam ter que resolver seus problemas com os amiguinhos. Precisam ter que obedecer e respeitar a professora, mesmo que ela grite e seja grosseira, a vida será grosseira uma infinidade de vezes depois disso. Elas precisam aprender a tolerar e suportar frustração.

É um ato de amor. Você não está sendo rude ou perversa nisso, você está ensinando seu filho que a vida não é um conto de fadas e está o treinando pra levar um não. Ensinando-o a chorar, esperniar, dar um tempo, pegar um fôlego, mas não desistir por isso.

Um outro ingrediente é a sensação de insegurança e solidão que essa criança sentiu que não permitiu que  ela compartilhasse seu drama com alguém que a pudesse ajudar. Ela se calou por não acreditar que havia solução possível ou alguém capaz disso. Precisamos ensinar os filhos a recorrer. Precisamos nos comunicar. 

Claro que isso é agravado aqui nos Estados Unidos, stay strong, be a man...mas acontece de outras maneiras no Brasil e em todos os lugares, e as vezes inclusive com a fantasia do filho perfeito, fantasia essa que ele recebeu dos pais, comprou, assumiu e agora não quer abrir mão.

Isso também é treino e eu desenvolvo aqui em casa em 3 pequenos passos.

Primeiro, pode contar tudo. Não fico reativa e normalmente diminuo o erro na proporção da preocupação deles. Outras vezes aumento, se a questão é séria e eles não se deram conta.

Eu sempre pergunto, foi de propósito? Não, ok. Então um pedido de desculpas e uma tentativa de reparação podem resolver. Muitas vezes eles não sabem pensar e estruturar isso, precisam de ajuda.

Por exemplo, brigou e foi cruel com o amigo. Rasgou algo importante. Vamos nos colocar no lugar do amigo, todo mundo ali errou e acertou. 

No outro dia vai se desculpar, vai levar um caderninho novo pro amigo e vai dizer que sente muito. 

Nesse pequeno ato treinou humildade, teve que lidar com a vergonha e responsabilidade de assumir o erro, foi empático e teve força de enfrentar uma situação problema. O fato dos pais ou cuidadores ajudarem a organizar a ação já oferece uma segurança tremenda, não precisamos fazer por eles.

Sempre tem sermão, é normal. Mães sendo mães. Mas tem a hora certa. Na humilhação e raiva ele não vai receber nada de maneira positiva, não tem efeito. Desgaste puro.

A segunda coisa é observação e comunicação. E ambos requerem tempo. Precisamos gastar tempo com nossos filhos. Olhar olhar olhar. Falar da formiga, do jogo, de como faz o bolo, da mãe do fulano, do cachorro...enfim.

O observar vai fazer com que possamos perceber alterações de funcionamento e de humor. E a comunicação vai permitir que possamos investigar sobre.

Mas não adianta ficar louca querendo conversar na adolescência. O treino começa lá atrás. São histórias menos interessantes, que a amiguinha é chata, fez isso, fez aquilo, que o lobo mal era muito feio, que os porquinhos eram burros, dali programação de teatro infantil, fazer a toalha de capa, a vassoura de cavalo, o lençol de monstro. Brincar de tubarão na piscina, de touro mecânico e de passar debaixo das pernas. Ler a mesma história, ver o mesmo filme. Decorar musicas e falas. Olha o meu chute, olha de novo, de novo, de novo, de novo. Vamos brincar de cabaninha, de casinha, de pequenique. Vamos cansar as pernas, suar a camisa, entender de minecraft, saber quem são os youtubers. Ver um vídeo inteiro (super engraçado).Vamos assistir o que interessa, vamos entender por quê interessa e o melhor de tudo (terceiro mas não menos importante), depois disso, mas só depois de tudo isso, nossa tarefa está cumprida, não precisamos alimentar a culpa de não estarmos exercendo a paternidade/maternidade e podemos dar os nãos tão necessários e preciosos que eles e nós precisamos.

Não tem protocolo de certo e errado, e não tem receita pronta. Mas se tiver difícil, peça ajuda. Assim inclusive ensinamos a eles que tudo bem pedir ajuda. Por nós e por eles.

Quando levei o meu pra terapia ele amou, achou o máximo. Era um assunto comum em casa, a mamãe adorava a terapia dela, era humana, precisava e pra ele foi um luxo ter uma pra ele. Nada de fraqueza, nem de perto. 

Através da nossa humanidade eles aprendem a ser humaninhos. Chore os erros na frente dele, deixe ele saber que foi grave, mas não alimente o drama mais que o necessário, permita o perdão e recomeço. 

As dificuldades nos fazem forte. Sem sadismo, com amor e amparo.

Certamente não vou conseguir esgotar esse tema, mas apaixonada que sou pela arte de educar e ser educada por eles, eu passaria horas escrevendo. E estou aberta pra receber opiniões e impressões sobre, dúvidas e desabafos. Os comentários do blog vão para o meu e-mail antes da publicação e se alguém quiser só conversar sem que seja publicado é só mencionar e colocar o e-mail que eu respondo direto.

Eu também acredito que se cada um fizer um pouco mais, e cobrir mais um tantinho, o outro descoberto talvez seja confortado, e por isso que estou abrindo essa porta, porque é o que posso fazer nesse momento, para além do setembro amarelo.

Que todos os meses sejam de arco-íris, que haja espaço para todas as cores e sentimentos, e que possamos sempre encontrar um ouvido aberto e uma mão estendida nos momentos que mais precisamos.

Até breve,









Comentários