Vamos falar de tristeza... digo natureza.

Ser mulher é guardar em si todo o movimento da natureza.

Os ciclos da lua, o vai e vem das marés, as quatros estações do ano, o dia e a noite, e as vezes, viver tudo isso em fração de segundos ou em um mesmo dia.

Pra dar a vida, a mulher tem uma relação estreita e intima com a natureza.

A natureza que é bela e plácida, mas também é assombro e trovão.

Nessa dança natural que é a vida, para quem nasceu sobre a benção ou maldição de ser mulher, existem nomes que guiam essas transições e momentos.

E o nome do que vai guiar esse texto é TPM;

SIM! Estou de TPM.

E se você é alguém que queira ser um leitor constante desse espaço, acostume-se com esses altos e baixos, indas e vindas, dia e noite.

Uma vez por mês teremos um encontro com esses sentimentos (E olha lá se eu não tiver uma recaída fora de época).

Então...

Te
Prepara pro
Mergulho!

Eu sou mulher, guardo a natureza em meu corpo, me orgulho, desfruto e honro isso.

Existem muitos estudos sobre isso, alguns teóricos pesquisam e defendem a tese que o mundo é guiado por hormônios e que todas as guerras e catástrofes tenham a ver com isso.

Bem, os caras que escrevem isso são homens, mas pelo tom de ressentimento percebo que foram profundamente tocados por mulheres que passavam por momentos assim, eles fazem referência especialmente a raiva, as tons quentes de vermelho, eu os entendo, também tive mãe e que tinha TPM. Que Deus os proteja!

Já eu não quero ir por esse caminho.

Eu quero falar sobre a nuvem cinza, sobre o fundo escuro, sobre a tristeza desses momentos.

Hoje eu fotografei uma árvore e coloquei de legenda que ela é outono em pleno verão.

Ela simbolizava isso naquele momento, o dia aqui está lindo, mas é outono/inverno no meu coração e corpo em pleno verão da minha vida.


                         Quero com isso abrir uma ressalva e gritar que isso não é um problema.

Repitam comigo: Não é problema, está tudo bem. Não é um problema, está tudo bem. Respirem e continuem repetindo até acalmar kkkkkkk

Se não der certo começa de novo que você fez errado.

Falando sério...

Isso é natural, como a ressaca do mar, como os dias nublados, como a noite ou a chuva.

Se recolher, entristecer e passar pelos outonos da vida é natural.

É claro, eu confesso que todo mês cansa. Deus sabe o que passei nos meses em que a vida estava dura, e eu era visitada por esse fenômeno, mas como diria Chico, isso também passa e é importante que tenhamos calma e possamos olhar e acolher esse sentimentos.

Eles serão nossos condutores a outros sentimentos, outros entendimentos, outros lugares dentro de nós mesmos.

                                        Tem uma charge que fala por si, e diz justamente isso:


Estamos em uma sociedade sem tempo pra nada, num ritmo desenfreado, precisando conquistar o mundo. Ainda que o mundo seja somente um carro novo, uma casa nova, um kit novo de maquiagem, um sapato ou viagem com família pra um lugar bacana.

Qualquer que seja a desculpa que você dá pra você mesmo para não poder parar, eu preciso te dizer, é só uma desculpa.

É impossível se transformar nessa máquina que as empresas e sociedade pedem que sejamos, sem adoecer, sem entristecer, sem altos e baixos. Se for mulher então, esquece!

Maaas, a gente sufoca, finge que tá tudo bem, vai mais um dia, e mais outro até que passe, e isso tem seu preço... e ok.

É preciso aguentar e caminhar, mas talvez haja ali uma lição oculta, algo que se pode aprender.

Nossa sociedade patologizou (espero que essa palavra exista) a tristeza, viemos aos poucos perdendo contato com o timing natural das coisas.

Um dia de tristeza, dois, no terceiro buscamos o médico, no quarto entramos com as pílulas mágicas.

Não quero aqui criticar os medicamentos, nem tampouco dizer que não existam doenças graves como os transtornos maníaco depressivos ou a própria depressão. Cada um tem seu caminho, sabe de si e existem momentos e situações que pedem esse tipo de intervenção.

Quero só dizer que existem dias tristes, de ressaca e nublados, e tudo bem também.

Respire, se alongue.

Se abrace, se proporcione coisas gostosas, chore.

Chore e chore, quantas vezes for necessário.

Respire de novo.

Não se envergonhe de seus sentimentos. Não tenha medo nem culpa. Você não fez nada errado, é a natureza dentro de você.

Isso também é vida, sinta essa vida que se apresenta de outra forma.

Dê a mão a tristeza e deixa ela te mostrar algumas coisas, que no dia a dia, na correria e no pique da realização nós não vemos.

Estranho mesmo, é estarmos alegres, saltitantes e ligados os tempo todo.

Eu sempre usava um exemplo no consultório, para ilustrar isso aos meus pacientes que lutavam em entrar em contato com a tristeza. Eles sempre queriam saber se era normal, inseridos que estavam socialmente, na maioria das vezes sentiam vergonha e culpa por estarem tristes.

Então vamos lá:

Pense em alguém que foi casado por 50 anos, e perdeu seu par. Um par que bom ou mal, foi sua companhia na ultima metade de século da vida daquela pessoa.

50 carnavais, 50 páscoas, 50 aniversários, 50 reveillons...

De um dia pro outro, sem muito aviso, porque nem sempre a vida manda telegrama dizendo o rumo que vai seguir...em uma terça à tarde, tendo um monte de coisas pra fazer, uma carne que tava fora da geladeira pra assar, dentista marcado ou o carro no mecânico, nada disso vai ser mais importante...

A morte chega, e essa pessoa fica viúva ou viúvo.

A pessoa fica passada, os familiares ajudam nas decisões e ela simplesmente percebe que não pode se enterrar junto.

Ela vai continuar, ainda não sabe como mas vai.

Imagina como serão os primeiros dias dela, as primeiras semanas, primeiros meses, que seja o primeiro ou primeiros anos.

Serão tristes, e até que a vida se renove dentro dela, que ela encontre sentido para retomar é assim que vai ser, é o natural.

E se ela não retomar, se a dor dela for muito grande para isso, quem de nós poderá condena-la.

A dor é de quem sente, precisamos respeitar, acolher e cuidar quando for possível.

Se a pessoa dessa cena acima estiver feliz e saltitante imediatamente, se não entrar em contato com a tragédia que viveu, se não parar um pouco pra olhar e viver esse momento, da maneira que seja isso para ela, algo está errado. Nesse caso ela vai precisar de mais ajuda do que se estivesse de fato triste.

E um outro detalhe importante é que não temos protocolo de tempo.

Uma tristeza ou luto, um recolhimento por algo da vida, que seja de dentro pra fora, ou de fora pra dentro, pode durar uma hora, um dia, uma semana, um mês ou ano.

Para algumas pessoas dura uma vida toda.

Graças a Deus, pra mim e pra muitas pessoas que vão ler, dura uma semana a dez dias.

Bendito seja esse recolhimento quando vem, e mais bendito ainda quando vai. Ufaa!

Depois passa. Depois vem de novo. Depois passa ... e vem. Assim é, e assim seja.

Já que escrevi a frase acima, vou finalizar com um poema, que amo muito, e ilustra bem tudo isso.

Fernando Pessoa certamente teve mais poesia que eu para falar disso e ficou lindo em suas palavras.


"Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento ... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural... 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva ... 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 
Assim é e assim seja ..."


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
Heterônimo de Fernando Pessoa 

Comentários

  1. Está delicioso ter vc um pouquinho por perto, pois é muito fácil ouvir sua voz quando vai lendo e principalmente imaginar sua risada gostosa. Continue e obrigada pelo presente

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  2. 👏👏👏👏 é tudo isso mesmo rsrs

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  3. Amando seus textos! Esperando pelos seus livros!! (palmas)
    Você sempre surpreende!
    Beijos com saudades

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  4. Tô adorando doutora, manda muito bem. Sucesso aí!

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  5. Lua adversa

    Tenho fases, como a lua
    Fases de andar escondida,
    fases de vir para a rua…
    Perdição da minha vida!
    Perdição da vida minha!
    Tenho fases de ser tua,
    tenho outras de ser sozinha.

    Fases que vão e que vêm,
    no secreto calendário
    que um astrólogo arbitrário
    inventou para meu uso.

    E roda a melancolia
    seu interminável fuso!
    Não me encontro com ninguém
    (tenho fases, como a lua…)
    No dia de alguém ser meu
    não é dia de eu ser sua…
    E, quando chega esse dia,
    o outro desapareceu…

    Cecília Meireles
    in Vaga Música, 1942.

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