Leia de estômago forrado

Seguir em frente.

Uns dias atrás eu falei que continuar é mais difícil que começar ou recomeçar...

O perseverar hora após hora, dia após dias, semanas e por aí vai.

A rotina massacra e a gente reclama, mas ainda assim ela oferece um conforto sem igual. 

Uma sensação de segurança que o vazio não tem e nem pretende ter, até porque, senão ele seria cheio e não vazio.

Não dá pra dizer que uma coisa seja melhor que a outra. Ambos os momentos são necessários.
No pulsar da vida a gente expande e recolhe. Começa e continua. Pára, recomeça. 

Mas esse vazio hoje me chamou atenção, obviamente porque este também é um tanto do meu momento. 

Tô olhando pra páginas em branco, esperando para serem escritas no livro da minha vida. 

Mas também pelo momento de recomeço ou reorganização de tantos ao meu redor, de amigos, parentes, família mesmo e até filhos. 

Em suma, esses momentos guardam suas semelhanças e por vezes parecem todos iguais. Parecem apenas. É sempre uma chance nova. 

Pra quem tem muitos, que sorte. Aproveite.

Pra quem tem poucos, então é raro. Aproveite.

Agora diferente, diferente mesmo é as milhares de maneiras pra lidar com isso.

Tem gente que a gente olha vivendo um vazio, e sabe que ele vai ser trampolim pra algo muito maior. Acredita nessa criação, no que virá dali, e nas mil possibilidades. É aquele ar do já deu certo.

Tem gente que carrega o ar do pesar, ainda tá vazio, mas o que quer que seja a pessoa já sabe que vai dar errado, porque é sempre assim ali. E eu não duvido, vai dar mesmo errado.

A página em branco, o dia amanhecendo, o primeiro dia do ano.

O convite do novo, pedindo pra você se jogar nele, e querendo se jogar em você.

E a comodidade te tirando sarro, larga mão sua besta, aqui você já sabe como é, felicidade não existe.

E você feito criança vitima de bulling, acredita no seu pior lado, e resolve descrer do melhor.

E se esse for o fim da história ela vai ser enfadonha e triste.

Feliz, ou infelizmente, eu gosto do novo. Não me assusta, só me incomoda as vezes ele num dar espaço pra eu levar meu cheirinho comigo. Meu objeto transicional, meu pedacinho do passado. 

Mas aí eu lembro, que a vida adulta é assim né, e fico pensando, que depois de chegarmos a idade adulta, de sermos capazes de viver nossas vidas, de criar e direcionar outras, pagar nossas contas em dia, atuar profissionalmente com o que a gente quer, ou não atuar, enfim, quanto tempo depois disso, o ser adulto é internalizado? 

Sim, maturidade e segurança são importantes, mas se a humanidade caminha e evolui pelas dúvidas, por que falaram para gente que temos que ter certeza? 

Porque se for nessa hora que a maturidade bateu, danou-se. Estou mais embrionária do que tudo.

A teoria cartesiana não me atrai, mas em algum momento do Discurso do método ele cita que  tudo que aprendeu, só serviu para ver o quanto ainda ignora, e vulgarmente partindo desse ponto, acho que nessa vida as certezas não são para mim. Não que eu nunca as tenha tido mas elas sempre são tão efêmeras, que eu percebo que a dúvida é bem mais constante, e merece então o respeito, por tudo que desperta e constrói. Toda vez que eu tive uma certeza, ou quis ter, a vida vinha e me tomava ela. As vezes com delicadeza, as vezes com um tapa na cara, de maneira que eu fui aprendendo a conviver com isso.

E nesse caminho de perder certezas, cada vez que perdia alguma, o novo se apresentava. A folha em branco de novo, e foi assim que eu comecei a gostar dele definitivamente e pude perceber, que se a folha estivesse preenchida, seria extremamente pobre.

Mas demorou a ter o pulo do gato, que essa folha em branco possui relevos. Sim, ela está em branco, escreveremos o que quisermos ali, mas ela possui relevos em suas linhas, altos e baixos, partes macias e partes ásperas que vão assentar o conteúdo que ali é colocado. 

Esse assentamento, certamente será feito da melhor forma possível, mas eu sei lá viu, se essa melhor forma, por mais que possa ser o melhor, se é bom mesmo; porque dependendo desse tal relevo, talvez não salve nada. 

Ou seja, o novo, por mais novo que seja, vai se encaixar no que já tínhamos vai fazer mais ou menos sentido a partir do que já vivemos. Vai ser pintado com a cor que consideramos mais fácil colocar e que é mais confortável aos olhos.

Como aquele tipo de gente que troca de emprego várias vezes, e sempre é a mesma coisa.

Ou quem troca de namorado, mas tem sempre a mesma cara, ou o mesmo jeito. Pois é.

Esse vazio esteve sujeito demais as construções anteriores. Esse novo não é tão novo assim.

E ah, no emprego ou com o namorado, a questão é o selecionador, de ambos. 

A questão é que o novo não tão novo, é meio conhecido e isso nos atraí. Isso claro, sem considerar questões psíquicas e inconscientes de repetição de história e etc. Falando bem por cima.

Tudo isso pra dizer, que o vazio precisa cumprir seu papel de vazio. 

Que precisamos passa a folha a ferro se necessário, pra que ela receba o novo da maneira mais imparcial possível.

E o termo vazio é tão amplo, que quando investigamos com as crianças sobre seus respectivos, tem uns que apontam na barriga, outros no coração, outros ainda na cabeça e eu ouvi, de um em especial que corria vento dentro dele.

Ele falava do vazio, mas falava também de uma fenda de abertura e sobre o quanto estava em contato com isso. 

Tantos vazios cabem numa vida, e eles não matam. Bom, na maioria das vezes não.

E se você encontrar a fenda no seu, não a tampe. Olhe por ela. Mesmo que a sensação seja de vento correndo no seu corpo.

Mais tarde esse pequeno me deu uma lição linda, disse que o vento que corria nele "aprendeu" ele a voar junto. 

Ele queria dizer que ensinou ele a se deixar levar a outro lugares e sensações e que isso foi bom.

Desde os simples como aquele que antecede a decisão do que vamos fazer de jantar ou os mais elaborados, como quando estamos escrevendo o projeto de doutorado. 

Quando precisamos decidir se casamos ou compramos uma bicicleta.

O não saber, o não domínio e o branco é o mesmo. 

E a minha dica também é, comece do que tem. Do mais fácil.

No simples, o que eu tenho na geladeira.... no complexo, o que eu já me atraio ou já sei pode me levar mais próximo do meu objetivo. 

É tentar fazer com que tenhamos controle do tal relevo, com que ele nos sirva.

E eu penso, que nossa maior dificuldade, além de sustentar o misto de sentimentos do vazio é ter que sair dele pra algo que seja definitivo. Esquece definitivo, assertividade, certeza.

Experimenta. 

Se der errado você volta atrás. Vazio de novo. Começar de novo. Experimentar de novo.

A certeza da incerteza, da possibilidade de mudança, por mais que possa ser difícil, é libertador.

É uma estória social essa coisa de certeza.

Uma vez assisti uma entrevista da Gretchen, e estavam questionando o fato dela ter se casado muitas vezes. E ela respondia que se casaria quantas mais fossem necessárias, porque a busca dela era pelo amor e alegria, e toda vez que estes não estivessem presente ela retomaria sua busca.

Não quero questionar a validade dessa prática, mas guardadas as proporções da vida dela e de cada um, eu concordo sim.

Quero colocar duas coisinhas aqui, que ilustram bem esse tema, que como fala de vazio e abertura fica muito fluido e fugaz.

A arte ou suas expressões, chegam onde a ciência não vai

Ela pode acalmar nosso olhar e coração, quando esse vazio confunde tudo.

Uma é essa música, que fala dessa vida fluida, fugaz e efêmera. Que mal a gente compreende e já foge. Vira vazio de novo.

De múltiplos significados e sentidos.


A outra é essa imagem:


Essa imagem me acalma, se o compromisso não é com o erro, podemos nos livrar dele e procurar o acerto sempre, quantas vezes forem necessárias. 

O pássaro em pleno voo, o olhar da maturidade, combinados com a frase faz parecer que tudo ficará bem, apesar do vazio.

E vou encerrar assim, porque não poderia ser diferente. Não dá pra encerrar um texto sobre o vazio sem te deixar com ele.

O lado bom, é que é sexta e talvez possa ser tempo de experimentar. 

Agora o vazio ficou maior, mas acho que é fome, são 12:59h. 

Ufaa, que bom que também pode ser fome!

Vou experimentar almoçar.
































Comentários

  1. As coisas que acontecem em nossas vidas não tem explicação, foi através do vazio que vocês deixaram que está me fazendo crescer cada dia, não dá pra entender o tanto que estou mudando meu jeito de pensar e agir depois da sua mudança, eu sabia que tinha muito em aprender,mas não sabia que seria na distância e na saudade, seu blog está demais me ensinando a cada episódio a cada dia, te amo eternamente até os últimos segundos da minha vida você faz parte de mim, hoje me coração bate em dois continentes diferentes, mas sua presença amanhece todos os dias em mim e isso me dá força sempre! Te amo demais 👭

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  2. Essa página em branco com relevos me trouxe a imagem desses bloquinhos de anotação onde a página seguinte sempre acaba marcada pela escrita da página anterior. Dependendo da intensidade dessa escrita, a marca fica mais forte. Quando pequena eu fazia decalques à lápis e brincava de detetive, tentando desvendar o que tinha sido escrito na página anterior...

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