Bônus e ônus

Fiquei pensando, depois que abaixei a tela do notebook após a publicação do último texto, nessa coisa toda de recomeço.

O processo de tomada de decisão para mudar pra cá não foi fácil. Uma galera achava que eu devia mudar com o marido assim que ele veio, outro tanto que eu não devia mudar nunca. Eu, radical de centro não tinha uma opinião formada, mas fui construindo.

Ao todo ficamos 1 ano e 8 meses separados, cada um em um país, num continente. E foi punk.

Em um outro momento vou falar de relacionamentos à distância, assunto inclusive que eu adoro e acredito muito, vide minha experiência rs. Mas o que primeiro me ocorreu foi sobre a necessidade de fuga do ser humano.

Nessa coisa de mudança, ouvi muito, mas muito mesmo, quisera eu estar mudando...

Quisera mesmo? Será?! Ninguém que disse isso é árvore, então a mudança é possível pra todos.

Ah, mas não é mudar pra qualquer lugar, queria mudar pros Estados Unidos, que é lugar top e blablablá.

Nenhum lugar é bom quando não estamos bem, nenhum lugar é tão ruim quando estamos de fato bem.

Você leva você pra onde for. Sorte sua. Azar o seu.

E essa era uma das minhas questões, o Brasil não estava ruim, não pra mim. Pelo contrário.

Eu estava num ótimo momento profissional, consultório cheio, lista de espera em horários nobres. Amigos, família, domínio local (o ir e vir sabendo onde estou é algo que levo a sério), era querida por muitos e bastante reconhecida. E aí, resolvi... não de um dia pro outro, mas ao longo de 6 à 8 meses que acompanharia ele, e gastei o resto de tempo no Brasil organizando isso.

E se a frase ali em cima é verdadeira, se me levo pra qualquer lugar, me trouxe pra cá. Quem sabe o que pode acontecer aqui?!

E quando a coisa tá acabando fica bom né.

Não, nem sempre rs... a questão é que vamos tendo uma saudade antecipada, que faz com que tenhamos o desejo profundo de aproveitar e viver tudo. Então meus últimos momentos no Brasil foram recheados de muito mimo, muito amor, muita amizade, despedidas lindas, bons desejos e pessoas incríveis, que me carregaram tanto com esse afeto, ao ponto de eu acreditar que tudo ficaria bem. E aos poucos vai ficando.

Tem bônus e ônus, como em tudo, é claro!

Nada como um dia após o outro com uma noite no meio...rs

Não me sinto ainda a vontade pra falar sobre a cultura daqui, porque afinal acabei de chegar, mas tô observando muito, e acho umas coisas muito loucas. Outras me identifico super e penso, esse povo que sabe viver.

A relação com a maternidade é o que mais tem me chamado atenção, e inclusive foi esse um dos fatores que me fez não querer chegar aqui convalidando diploma para atender, com pressa. Eu queria e quero me aproximar dessa cultura para compreender melhor e mais profundamente as relações estabelecidas aqui.

Ano passado, em julho, vi uma cena aqui mesmo em College TX, que me chamou muita atenção, inclusive comentei com algumas pessoas no Brasil depois.

Uma menininha em um supermercado, quase bebê, um ano e meio talvez. No Brasil certamente estaria ainda sendo tratada como bebê (claro, guardadas as condições de cuidado e proteção médias); pois bem, ela tomava sorvete sozinha, mirava a boca, acertava e não derrubava. Isso de pé, um tanto afastada da mãe que seguia passando as compras no caixa. Era muita independência e autonomia para uma criança daquele tamanho. Fiquei impressionada. E não era exceção, esse é só um exemplo.

Recentemente vi outras cenas, uma criança na praia de uns dois anos, indo e voltando do mar sozinha, com outra criança de uns 7 anos (que não era lá muito atenta). Batia na onda, ria e voltava. Os pais sentados, conversando com outras pessoas, bebendo e se divertindo, olhavam de vez em quando, sentados a uma distância de uns 15 a 20 metros talvez.

Eu, naturalmente, ainda estou comparando muito. Mesmo que depois eu suspenda essas comparações para viver e aprofundar na experiência.

No Brasil levamos piscininha plástica, enchemos com água do mar, as mais neuras com água doce e deixamos de camiseta.

As mães não são más ou indiferentes, é cultural. Elas tem outras prioridades de cuidado. Acreditam que é importante desenvolver autonomia para que essas crianças estejam preparadas para o mundo. E embora seja diferente dos nossos costumes, elas têm razão. Encontrei inúmeras crianças com sensação de incapacidade frente a desafios pequenos porque não eram estimuladas nesse sentido, e o principal, não era deixadas sozinhas para realização de algum desses feitos. Estou falando de coisas simples, pegar água, comer uma fruta (que não precise descascar), ajudar em tarefas simples como ajudar a cuidar do cachorro ou mesmo amarrar o tênis. Ensinei muitas crianças a amarrar o tênis no consultório. Dava trabalho, no final da sessão, em cima da hora, em vez de amarrar pra eles sentava e esperava eles fazerem.

Esse é o ponto, as vezes, na correria do dia a dia, os pais assumem essas tarefas para ser mais rápido. Imediatamente é uma solução, mas a médio e longo prazo essas crianças precisarão desenvolver esses recursos.

Educar dá trabalho, é gastar tempo ao lado do bichinho, no Brasil e em qualquer lugar do mundo.

Por outro lado, aqui eles escolhem moradia pela escola que atende o bairro, e levam isso muito a sério. Foi assim comigo também, queria uma casa perto da escola com maior conceito, não só pelo acadêmico (já que meu filho teria que se adaptar de qualquer forma), mas porque esse conceito era composto de vários itens, que incluem atendimento e inclusão.

Essa postura dos pais americanos tende a produzir filhos com maior autonomia, mais segurança para desbravar o mundo, menos melindres. Mas certamente também guarda seus efeitos colaterais, como a nossa, que em alguns momentos gera o oposto dessa segurança, com atitudes que os enfraquecem disfarçadas de cuidado. Isso, sem considerar, a questão (que muitas vezes é inconsciente) de desejo dos pais de manter essas crianças infantes por mais tempo, assim eles também são adultos (ou crianças rs) por mais tempo. Assunto delicado, que pode ser muito, muito explorado. Não hoje.

Tem bônus e ônus... de novo, haha

Tem gente que só quer o bônus, tem gente que só olha pro ônus. Inclusive no exercício da educação e nas características que envolvem esta.

Escolhendo casa, percebi que 90% ou mais das casas tem um projeto que coloca os quartos dos filhos longe dos pais, do outro lado da casa. A minha também é assim. E eu fiz o marido rever mil vezes a coisa de prevenção de incêndio, os alarmes e etc. Mãe brasileira pensando, e se pegar fogo, como salvo meus filhos do outro lado.

Claro, nem tudo é superproteção, existe cuidado e proteção mesmo.

Difícil é encontrar a linha tênue que separa um de outro. Onde um termina e o outro começa. Se vocês encontrarem, me avisem!

Lembrei, pensando nisso, da fala de um orientador querido, que dizia que a superproteção é pior que a negligência. Em condições ideais, é claro, não desejamos nenhuma delas, mas o ideal rs...sei não se é desse mundo.

Ele dizia para observarmos as plantinhas, que inundadas de água invariavelmente morrem. Com uma privação (relativamente pequena, obviamente) se desenvolve guiada a buscar recursos de água e sol.

Hoje a educação marcada pela superproteção vem influenciada por alguns fatores, que combinados geram grandes desastres nos pequenos, futuramente nas suas vidas, e por consequência na nossa sociedade. Sim, eles crescem!

 A correria, faço por ele porque é mais prático; a dificuldade de perceber e aceitar o crescimento da criança e logo ter que amadurecer na medida que esse outro também amadurece; o narcisismo dos pais, querendo filhos perfeitos, que merecem vidas perfeitas e o ideal sempre; e também pela ideia (louca, descabida) de que as crianças não podem ser frustradas, que ficarão traumatizadas e etc.

Criança precisa de não, de limite, de contorno para crescer saudável (físico e mental) e isso também em qualquer lugar do mundo.

Tem mais um monte de coisas que eu posso e quero falar sobre isso, mas a realidade me chama.

É sábado, está sol, tem um menino serelepe aqui em volta de mim, querendo contar como a lua foi formada e eu quero escuta-lo.

Leia sobre educação, mas gaste tempo praticando e vivendo com qualquer pequeno que esteja ao seu alcance.

Tudo o que eu vi e vivi no consultório tem me ajudado a aproveitar minha vida de uma maneira melhor, especialmente em relação a criação de filhos.

Me ajuda a errar menos, ou a cometer erros diferentes dos que eu assisti.

No entanto, Freud dizia: "Eduque-o como quiser, a de fazer errado de qualquer forma."

Então, boa sorte!





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